JORGE FERNANDES

JORGE FERNANDES

Nascido aos 3 de abril de 1962, Jorge Luiz Leite Fernandes aprendeu a nadar no Tijuca Tenis Clube, sempre acompanhado da mãe, pois a princípio tinha medo de água. A evolução foi rápida, e em 1974 no primeiro ano da categoria infantil ele foi vice-campeão carioca no nado borboleta. Uma contusão no ombro o forçou a trocar de estilo para o nado livre, para sorte da natação brasileira.

Em março de 1975, portanto com 12 anos, Jorge foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira, o Sulamericano Infantil no Chile, onde foi campeão continental pela primeira vez. Em 1977, repetiu a convocação e foi representar o Brasil no Peru, obtendo quatro medalhas de ouro.

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Em 1978, além do Sulamericano Absoluto no Equador, Jorge participou de seu primeiro Mundial Absoluto em Berlim com apenas 16 anos. A evolução era grandiosa, e o primeiro recorde sulamericano principal viria um ano depois, na Copa Latina de 1979 realizada no Parque Aquático Julio de Lamare. O recorde brasileiro e sulamericano (53”35) de 100 Livre de Ruy Tadeu Aquino Oliveira já durava mais de sete anos, até que Jorge abriu o revezamento 4×100 do Brasil e obteve a muito festejada marca de 53”22.

Ainda em 1979 conquistou no Pan de Porto Rico a medalha de prata no 4×200 Livre, com a equipe formada por Jorge, Djan Madruga, Marcus Mattioli e Cyro Delgado, e ganhando do Canadá, fato esse que jamais havia acontecido. O tempo obtido nesse Pan, de 7:38.92 foi muito bom, e teria dado o quinto lugar nas últimas olimpíadas de Montreal 1976.

Pan 1979. Capa da Revista Nado Livre, ao lado de Ricardo Prado.

Pan 1979. Capa da Revista Nado Livre, ao lado de Ricardo Prado.

Essa vitória sobre o Canadá e o bom tempo obtido deu confiança à equipe e plantou a semente do bronze olímpico que viria no ano seguinte. Em virtude do ineditismo, muita gente pensa que esse bronze teria caído do céu por uma espécie de sorte, tendo sido apenas uma grata surpresa, mas na verdade o que ocorreu foi precisamente o contrário, essa medalha foi meticulosamente planejada desde a prata do Pan. De olho no metal e liderados pelo já membro do HFNB, Djan Garrido Madruga, o quarteto fez treinamento intenso e específico para essa prova, incluindo uma temporada de quatro meses de treinamentos nos Estados Unidos (Mattioli em Indiana e os outros três em Mission Viejo). O cardápio de treinamentos incluía, além de treinos muito mais extenuantes do que os realizados no Brasil na época, exercícios físicos e psicológicos de mentalização, na qual os nadadores do revezamento exercitavam a visualização do dia da prova. Curiosidade: em Mission Viejo, ao contrário de Cyro, que treinou com os velocistas, Jorge optou por treinar entre os fundistas, para “ganhar mais base”.

Equipe treinando em Mission Viejo para as Olimpíadas de Moscou. Jorge é o quarto em pé da esquerda para a direita. Na foto ainda é possível ver Ricardo Prado no extremo inferior esquerdo, e Djan Madruga o sétimo da fileira do meio. Foto de David Barnes.

Equipe treinando em Mission Viejo para as Olimpíadas de Moscou. Jorge é o quarto em pé da direita para a esquerda. Na foto ainda é possível ver Ricardo Prado no extremo inferior esquerdo, e Djan Madruga o sétimo da fileira do meio. Foto de David Barnes.

Nos Jogos Olímpicos de Moscou (1980) o revezamento 4×200 Livre foi no quarto dia, e o pessoal não tinha conseguido bons resultados até então. No primeiro dia, Rômulo Arantes Jr bobeou na semifinal dos 100m Costas e foi eliminado, e no dia seguinte foi a vez de Djan ter problemas nos 1500m Livre, sendo também eliminado. Eram as duas maiores esperanças do Brasil, e viraram pó em apenas dois dias. O clima na seleção brasileira não era dos melhores. Os tempos da prova de 200m Livre do segundo dia (21/06) tinham sido razoáveis, mas Jorge (1:54.32), Marcus (1:54.39) e Cyro (1:54.59) tinham que melhorar muito e contar com a recuperação de Djan para continuar sonhando com a medalha.

Moscou, 23 de junho de 1980. Mesmo hoje tantos anos depois é difícil imaginar como foi possível tanta melhora entre o dia 21 e o dia 23. Fato é que a mentalização continuou sendo efetuada no quarto do Djan, de forma que os nadadores entraram totalmente focados na piscina do Olympiysky Sports Complex em Moscou para a apresentação da final dos 4×200. Nas palavras de Jorge Fernandes: “o Djan tinha feito a gente mentalizar tanto aquele momento que até parecia um déjà vu. Foi como uma mágica, e tudo ocorreu exatamente como a gente havia planejado, desde a largada até a medalha no final. Até o pódium a gente tinha mentalizado!”.

De fato, a final foi um momento especial onde os quatro nadadores do revezamento conseguiram extrair até a última gota, realizando brilhantemente tudo aquilo que haviam mentalizado. Jorge abriu com 1:52.61 (1.69s melhor do que seu próprio tempo de dois dias antes), Mattioli tirou 1.45s do tempo da prova e fez 1:52.94, Cyro melhorou 2.24s e obteve 1:52.35, e Djan fez a prova da sua vida, fechando o revezamento com 1:51.40.

Fizesse esse tempo na prova olímpica de 200 Livre apenas dois dias antes, e Jorge teria ficado em sexto lugar. É sintomático do nível atingido naquele dia o fato de que o tempo final do revezamento foi melhor do que quatro vezes o recorde sulamericano vigente de 200L do Djan (1:52.34), uma performance realmente extraordinária. O Brasil acabou em terceiro com 7:29.30, atrás da USSR (7:23.50) e da Alemanha Oriental (7:28.60).

As fotos abaixo são referentes a essa conquista.

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A partir de 1980, Jorge recuperou o recorde dos 100 Livre que era do Djan (52.79) desde agosto de 1979, e o melhorou várias vezes.

52.56 (fev/1980, Rio)
52.51 (jul/1980, Moscou)
52.33 (fev/1981, Rio)
52.06 (jul/1981, Bucareste)

Em fevereiro de 1982, durante o Troféu Brasil realizado no Ibirapuera, Jorge Fernandes atingiu o seu próprio auge físico e técnico obtendo os recordes brasileiros e sulamericanos dos 100L (51.21) e 200L (1:51.33). Esses recordes brasileiros absolutos durariam até 1990, quando foram batidos por Cristiano Michelena (200L , veja aqui) e Emmanuel Nascimento (100L), e nesse período Jorge continuou representando o Brasil em todas as competições pelo Mundo afora, sequência que duraria até dezembro de 1990, quando ele aposentou a sunga de papel. Ou seja, durante uma década inteira, Jorge era sempre apresentado como o recordista brasileiro absoluto em vigência, dando maior importância à todas as provas que participou.

Acompanhe abaixo a chegada dos 200L desse lendário TB de fevereiro de 1982 em que Jorge Fernandes fez um tempo que o colocaria em terceiro lugar do Ranking Mundial do ano anterior e teria lhe dado a medalha de bronze individual em Moscou.

Não que Jorge tenha vencido todas as provas de livre no Brasil durante todo esse longo período: as disputas com Cyro Delgado, Djan Madruga, Ronald Menezes, Julio Rebollal, Luiz Osorio Anchieta e Cristiano Michelena (dentre outros) foram épicas, ele perdeu algumas e ganhou outras tantas (em 200L ganhou quase todas), mas pode-se dizer que foi – de longe – o nadador mais presente em seleções brasileiras entre 1975 e 1989, incluindo três olimpíadas (1980, 1984 e 1988), três mundiais (1978, 1982, 1986), três Panamericanos (1979, 1983 e 1987), três Universíades (1981, 1983 e 1987), seis Copas Latinas e oito Sulamericanos.

Ganhando os 400L no TB de 1984.

Ganhando os 400L no TB de 1984.

Além do bronze olímpico foram seis medalhas de Pan (lembrando que em 1979 e 1983 os EUA nadaram o PAN com equipe principal) e cinco medalhas de Universíades. Destaque brasileiro nas Copas Latinas, Jorge ganhou quatro ouros individuais nos 200 Livre, além de mais de uma dezena de medalhas em outras provas. Veja a seguir uma retrospectiva fotográfica de algumas das seleções brasileiras no período.

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Especialista em 100 e 200 Livre, Jorge era invariavelmente escalado para fechar revezamentos, tanto do Flamengo quanto do Brasil, protagonizando um show à parte nesse quesito. No front político, Jorge Fernandes empregou toda sua autoridade de craque onipresente integrando a primeira turma de nadadores da União Nacional dos Nadadores (UNN), entidade que ajudou na redemocratização do país e fez história, influindo de verdade pela primeira vez nos rumos de uma Confederação.

UNN 1985. Todo o peso político do medalhista olímpico na política em tempos de redemocratização do país. Na foto, Jorge está atrás à direita, de bigode.

UNN 1985. Todo o peso político do medalhista olímpico na política em tempos de redemocratização do país. Na foto, Jorge está atrás à direita, de bigode.

A presença desse grande nadador medalhista olímpico e recordista sulamericano em todas as competições no Brasil e no exterior pela seleção brasileira durante tantos anos difíceis para o esporte foram sem dúvida fator de fortalecimento da nossa natação contribuindo – e muito – com as novas gerações.

Despedida em dezembro de 1990, às lágrimas, ao lado de Cristiano Michelena.

Despedida em dezembro de 1990, às lágrimas, ao lado de Cristiano Michelena.

Pela atuação política, pela presença marcante e incentivadora, pela liderança positiva, pelas seis medalhas de Panamericano, e, acima de tudo, pelo papel decisivo que teve na medalha de bronze olímpica, Jorge Fernandes é o sexto nome ora eternizado no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Certificado - Jorge Fernandes

JOSÉ SYLVIO FIOLO

JOSÉ SYLVIO FIOLO

No sul-americano de 1966, em Lima, surgiu uma nova esperança para a natação brasileira. Lá de Campinas, ainda com 15 anos de idade, apareceu José Sylvio Fiolo para se tornar o melhor peitista isolado do continente e um dos maiores nomes da natação brasileira de todos os tempos, fazendo jus a integrar o panteão do Hall da Fama da Natação Brasileira.

Segundo lugar no Campeonato Paulista de Natação - março de 1964. Em pé - Tonhão, Farid, Alvaro Pires, João Agostinho. De cócoras, Norio Ohata, Fiolo e Foca - foto postada por José Fiolo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Segundo lugar no Campeonato Paulista de Natação – março de 1964. Em pé – Tonhão, Farid, Alvaro Pires, João Agostinho. De cócoras, Norio Ohata, Fiolo e Foca – foto postada por José Fiolo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Em junho de 66, ele quebrou o recorde sul-americano dos 100m marcando 1m11s0. Nos doze meses seguintes ele esfacelou a marca, culminando com sua participação no Pan de 1967, em Winnipeg, quando nadou em 1m07s5 e levou um dos seus dois ouros individuais, os primeiros títulos brasileiros de Pan desde Tetsuo Okamoto, em 1951. No revezamento 4×100 4 estilos, que conquistou a medalha de bronze nesse Pan, Fiolo nadou para a incrível marca de 1m06s6, 1 décimo de segundo abaixo do recorde mundial do soviético Vladimir Kozinski.

Revezamento 4x100 4 estilos, medalha de ronze nos Jogos Panamericanos de Winnipeg em 1967 - Waldyr M. Ramos (costas), José Sylvio Fiolo (peito), João Reinaldo Costa Lima Neto (borboleta) e Ilson Asturiano (livre) - recorte de jornal postado por Sandra Novaes Asturiano no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Revezamento 4×100 4 estilos, medalha de bronze nos Jogos Panamericanos de Winnipeg em 1967 – Waldyr M. Ramos (costas), José Sylvio Fiolo (peito), João Reinaldo Costa Lima Neto (borboleta) e Ilson Asturiano (livre) – recorte de jornal postado por Sandra Novaes Asturiano no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

O Recorde Mundial

Em outubro de 1967, a revista Swimming World publicou um longo artigo sobre o Fiolo e seu estilo inovador. Suas braçadas e pernadas fortes e mais longas contrastavam com a técnica predominante do estilo acelerado do americano Jastremski. Seu técnico no Botafogo, Roberto Pavel afirmou que o estilo de Fiolo misturava a braçada russa com a pernada americana, mesclando a técnica de nado das grandes escolas de natação da época. A lenda da época era que ele rasgava, com um só movimento das mãos, a lista telefônica inteira da cidade de São Paulo.

No Sul-Americano, em fevereiro de 68, no Fluminense, ele baixou seu recorde para 1m06s8, pondo uma frente impensável de quatro segundos no segundo colocado. Com o resultado, seu técnico Roberto Pavel acreditava que Fiolo poderia superar a melhor marca mundial dos 100m peito. Ao término da competição, solicitou aos juízes da FINA que ficassem mais alguns dias na cidade para que pudessem assistir e regulamentar uma tentativa de recorde de Fiolo.

Quatro dias depois, veio o recorde mundial, na piscina do Clube Guanabara. As arquibancadas ficaram lotadas para torcer por mais um recorde mundial naquela “mágica” piscina. O recorde anterior era do soviético Vladimir Kozinski, com 1m06s7, estabelecido no dia 8 de novembro de 1967 em Leningrado. Velocista nato, Fiolo tinha a tendência de nadar muito forte a primeira metade da prova. “Meu técnico então decidiu pela tática de passar os primeiros cinquenta metros mais lento para ter melhor final de prova.” Seguindo a estratégia com precisão, virou a primeira metade em 31s4 e teve forças para completar a prova em 1min06s4. Fiolo nadou sozinho no dia 19 de fevereiro de 1968 para a incrível marca de 1m06s4, para uma ruidosa comemoração da enorme torcida e para entrar na galeria dos recordistas mundiais dos 100 metros nado peito. Até então, os recordistas eram todos americanos ou soviéticos, apenas com a rápida exceção do alemão Gunter Tittes, que deteve o recorde por 23 dias em julho de 1961. O recorde de Fiolo durou 2 meses e foi quebrado por Nicolai Pankin, em abril de 1968, com o tempo de 1m06s2.

Equipe de natação do Botafogo, treinada por Pavel

Equipe de natação do Botafogo, treinada por Roberto Pavel – foto postada por Vera Lucia Figueiredo no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

México

Fiolo chegou ao México, em outubro de 68, como um dos favoritos, senão o favorito, para a prova dos 100m peito. Ele tinha também um dos melhores tempos dos 200m peito. Mas como no caso de seu contemporâneo, Mark Spitz, outra estrela de Winnipeg, a realidade ficou a desejar. Nos 100m, apesar de ter crescido das eliminatórias até as finais, passando pelas semis, no final veio um quarto lugar. Na frente dele, por um décimo, a dupla de russos Kosinsky e Pankin, que pegaram a prata e bronze respectivamente. Os três tinham detido, em meses diferentes, o recorde mundial da prova nos doze meses que antecederam aquela olimpíada. Fiolo, o mais forte velocista e talvez o de menor capacidade aeróbica, liderou a prova até os 75 metros.

No vídeo temos a filmagem da prova dos 100 metros nado peito nos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México:

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Na prova dos 200m peito, assim como aconteceu com Spitz nos 200m borboleta, talvez sob o efeito da frustração da prova dos 100m, seu resultado foi catastrófico, com uma piora de mais de dez segundos e a não classificação para as finais. A prova foi vencida pelo mexicano Felipe Muñoz, “El Tíbio”, que trouxe as arquibancadas abaixo conquistando o primeiro ouro, em todos os esportes, para os anfitriões. Um ano antes, em Winnipeg, Fiolo tinha deixado Muñoz engolindo marola, quase 10 segundos atrás. No revezamento 4x100m medley, Fiolo teve a melhor parcial de todos os nadadores de peito, nadando um segundo abaixo de seu tempo na final da prova individual. Mesmo assim, não pegamos final nesta prova e, como de praxe, em nenhuma outra.

Entre 1968 e 1972, a natação brasileira cresceu em qualidade de base mas não em talento de ponta. Fiolo e Aranha, nosso melhor velocista no livre, foram morar e treinar nos Estados Unidos. Fiolo lutava contra a desmotivação, oriunda da falta de adversários no Brasil. Sua fama era de quem gostava de dar seus tiros de 25m na ensolarada piscina suspensa do Mourisco, mas escapava da rotina entediante dos treinos diários longos. O peito evoluiu bastante naqueles quatro anos intra-olímpicos, principalmente a capacidade aeróbica e os tempos de 200 metros, mais do que nossa estrela maior progrediu.

Troféu Brasil no Rio de Janeiro, com o Botafogo campeão em 1971

Troféu Brasil no Rio de Janeiro, com o Botafogo campeão em 1971 – Foto postada por Jiro Hashizume no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Munique

Para Munique, levamos nossa maior equipe de nadadores da história até então. Depois de vinte anos, o lado feminino voltou a fazer parte do escrete, representado pelas cariocas Lucy Burly e Cristina Bassani Teixeira, e pela mocoquense Isabel Guerra. Na última seletiva no Mourisco, o conselheiro técnico da CBD, Júlio Delamare, ajudou a formar nosso time de nadadoras. O garoto Rômulo Arantes, de 15 anos mal completados, surpreendeu nesta última competição, foi convocado, e começou seu reinado de maior costista do país pela década seguinte afora. Nossa seleção foi pra Salvador, para os preparativos finais e para fugir das águas não aquecidas das piscinas do sudeste no inverno.

Na Alemanha, apesar da equipe mais numerosa, voltamos a depender de Fiolo para resultados potenciais de destaque. José Aranha, nos 100m livre, e Sérgio Waissman, nos 100m borboleta, não fizeram feio, passando para, e crescendo nas semis. Mas final e chance de medalha era só com o peitista. Enquanto o mundo assistia o maior show natatório já visto, proporcionado por Mark Spitz, a outra estrela que despontou em Winnipeg, em 1967, Fiolo fez o que podia. Nas semis, com o tempo de 1m05s99, recorde sul-americano que durou até 1982, quando foi batido por Luiz Francisco de Carvalho no mundial de Guayaquil. Ele se classificou em quarto lugar no geral, alimentando nossas esperanças de uma medalha. Mas numa final apertada no dia seguinte, ele caiu duas posições e terminou em sexto lugar. A prova foi vencida, com recorde mundial, pelo japonês Nobutaka Taguchi, que tinha sido mais lento que Fiolo, e depois desclassificado, quatro anos antes no México.

Foto de Luiz Carvalho postada no Álbum das Gerações da Natação Brasileira

Foto de Luiz Carvalho postada no Álbum das Gerações da Natação Brasileira. Luiz Carvalho está com algumas falhas no cabelo, pois era calouro nesses jogos panamericanos e teve o cabelo raspado. Em 1982 Luiz Carvalho superou o recorde sulamericano de Fiolo, estabelecido em 1972.

Confira a prova de Munique no link abaixo. Repare a saída a la antiga de Fiolo, na raia 6, com a rotação inteira dos braços antes do pulo, ainda em forma quase chapada. Depois de sair mal, ele rapidamente parte pra liderança, emparelhando com o japonês, antes dos 25 metros. Mas seu estilo de força e pouca capacidade aeróbica paga seu preço no final.

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Na prova dos 200m, apesar de ter nadado perto do seu melhor, ele comprovou que já tinha ficado muito pra trás dos tempos líderes da prova. Winnipeg tinha sido cinco anos antes e, em Munique, Fiolo passou longe da final. Um dos melhores momentos da natação brasileira em Munique, aqueles que surpreenderam as expectativas, e só foram possíveis pelo crescimento do conjunto da natação brasileira, foi a prova de revezamento 4x100m medley, onde todas as parciais foram abaixo do recorde brasileiro da respectiva prova individual. Rominho entregou em oitavo, estabelecendo novo recorde sul-americano para os 100m costas. Fiolo e Waissman não conseguiram sair da lanterna, mas Aranha fechou com 52s09, quase um segundo e meio abaixo do recorde sul-americano dos 100m livre (53s40 do Ruy T. A. De Oliveira), e ultrapassou Japão, Inglaterra e Hungria, terminando na quinta colocação e melhorando em 5 segundos o recorde sul-americano da prova.

Com a brilhante carreira, um recorde mundial de longa, dois títulos panamericanos e ficando muito próximo da sonhada medalha olímpica, Fiolo se consagra como o quinto homenageado do HFNB.

Certificado do Hall da Fama - Fiolo

Alguns links com dados adicionais sobre esse grande atleta homenageado pelo Hall da Fama da Natação Brasileira:

Artigo de Pedro Junqueira no site da BestSwimming:  http://www.bestswimming.com.br/beijing2008/conteudo.php?id=8946

Reportagem do programa Memória do Esporte Brasileiro da Rede Record: http://esportes.r7.com/esporte-fantastico/memoria-esporte-brasileiro/noticias/memoria-do-esporte-brasileiro-uma-derrota-inesperada-marcou-a-carreira-do-jovem-nadador-jose-silvio-fiolo-nas-olimpiadas-de-1968/

ROMA – 1960 – A final dos 100 metros nado livre

O Hall da Fama foi atrás do filme de uma das provas que teve uma das chegadas mais debatidas na história dos jogos olímpicos e que possui um especial valor histórico para nós brasileiros, já que foi nessa prova que Manoel dos Santos conquistou sua medalha de bronze olímpica.

Tentamos conseguir o filme original junto ao IOC (International Olympic Comitee) porém ainda não conseguimos chegar em um bom acordo para disponibilizarmos o conteúdo que está armazenado no arquivo olímpico em Lausanne.

Fomos então atrás do International Swimming Hall of Fame (www.ishof.org) para verificar se eles possuiam essa filmagem nos arquivos deles. Tivemos uma ótima receptividade de nossos colegas do ISHOF e para nossa surpresa foi disponibilizado esse video histórico na noite de 09 de maio, atendendo a nosso pedido.

Segue reportagem exibida pela CBS em 1960, com parte da prova dos 100 metros livre em Roma. Manoel dos Santos chegou bem na frente na virada dos 50 metros, porém foi ultrapassado pelos concorrentes na virada e saiu forte, atropelando todos nos 50 metros finais, porém acabou ultrapassado pelo australiano John Devitt e pelo americano Lance Larson, perdendo o ouro na batida de mão, em uma das chegadas mais polêmicas dos Jogos Olímpicos.

 

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MANOEL DOS SANTOS

MANOEL DOS SANTOS

A história de Manoel dos Santos nos remete ao interior de São Paulo, dado geográfico pertinente porque é deste mesmo interiorzão paulista que vieram quase todos os nossos melhores nadadores masculinos até hoje. Tetsuo de Marília, Manoel de Guararapes, Fiolo de Campinas, Prado de Andradina, Gustavo Borges de Franca e César Cielo de Santa Bárbara d’Oeste. A curiosidade geográfica fora de série é que o pai de Manoel, um imigrante português, era proprietário de um hotel em Andradina onde ele hospedou, durante muito tempo, um casal de gaúchos que migrou para lá, e que, este casal, gerou, entre vários campeões nadadores, um outro recordista mundial brasileiro, o seu caçula, Ricardo Prado. O pai de Manoel, além de ter gerado um recordista mundial e hospedado os geradores de outro recordista mundial, era dono também de um cinema, onde seu filho garoto obrigava o operador das películas repetir várias vezes as cenas dos filmes do Tarzan nas quais o Johnny Weissmuller dava suas braçadas. Manoel assistia e observava o grande campeão olímpico e tentava imitá-lo na Represa do Ramalho.

Treinamento de Internato

No seu quarto ano de vida, Manoel passou a maior parte do tempo em um hospital, se recuperando de recorrentes ameaças de pneumonia e similares que seu mirrado e fragilizado corpo sofria. O pai viu na natação a salvação daquele drama. Antes de completar onze anos, no começo de 1950, Manoel foi estudar como interno em Rio Claro, no Ginásio Koelle, um colégio alemão. O menino se viu afastado da família, a qual ele só via nas férias e semana santa, quando ele pegava o trem para o oeste do estado. Lá em Rio Claro, na rotina rígida do colégio, Manoel se ajustou bem com o programa natatório. Numa piscina de uns 20 metros, sob a orientação de Bruno Buch, seu primeiro mestre, ele passou a treinar, competir e fazer parte do time do ginásio.

O nadador mais forte do grupo era um garoto três anos mais velho que Manoel, chamado João Gonçalves, futuro campeão e recordista sul-americano no nado de costas e atleta multiesportista participante de várias olimpíadas. Mas João tinha um estilo, como nadador, chamado na época de brigador. Na base da força bruta. Por outro lado, a namorada do João, Inge Borg, deslizava na água e era considerada uma estilista, da escola do Weissmuller que inspirava Manoel e que influenciou seu estilo. A versão moderna do estilista seria o australiano Ian Thorpe, com seu nado sem arranque de cabeça e de braçadas angulares, simétricas e fluídas.

Em 1955, Manoel dos Santos se aproximou do topo nacional. Seu nado era o costas e seu treino era mais focado neste estilo. Nos 100m livre, estávamos em época de transição na liderança nacional. Nossos três maiores velocistas da virada de década e começo dos anos 50, os cariocas Aram Boghossian, do Tijuca, Sérgio Rodrigues, do Fluminense, e o paulista pinheirense Plauto Guimarães, tinham dependurado as respectivas sungas. O paulista Paulo Catunda e o santista Haroldo Lara eram os mais rápidos agora. Haroldo seria nosso maior expoente até 1957, quando largou a natação, se mudou para a Itália e se tornou cantor de ópera.

Em março de 1955, Manoel foi convocado para sua primeira competição internacional, os II Jogos Pan-Americanos, na Cidade do México. Desde então, a partir dos seus 16 anos de idade, ele encarou estes momentos como representante nacional com excessiva responsabilidade e idealismo de atleta amador daqueles tempos. O adjetivo amador significava, antes de tudo, aquele que ama o esporte, e não tinha a conotação atual de praticante de segunda linha, ou de inocente. No México, depois de uma viagem de avião militar de carreira, um DC-3, que durou quatro dias, com pernoitadas em Belém, Trinidad e Tobago e Cuba, Manoel competiu muito mal. Sua principal lembrança do torneio foi do momento em que ele saiu desolado da prova, caiu numa bela piscina vizinha de aquecimento e, fingindo estar se soltando, chorou muito, solitariamente, até a última lágrima se perder escondida no meio do cloro.

No ano seguinte, em fevereiro de 56, em Viña del Mar, no Chile, aconteceu a décima-terceira edição do campeonato sul-americano. Das doze anteriores, o Brasil só tinha derrotado a Argentina uma única vez, na mesma Viña del Mar, em 1941. Manoel dos Santos, escalado para os 100m livre, ficou em quinto lugar na final, e Haroldo Lara pegou a quarta posição. Nos 200m costas, Manoel ficou em quarto lugar e a prova foi vencida por seu colega de Rio Claro, João Gonçalves. No revezamento 4x100m livre, a prova teve uma final espetacular. Em primeiro, com recorde de campeonato, em 3m59s7, chegaram os peruanos. Um décimo de segundo atrás, medalha de prata, chegou o Brasil. Os argentinos vieram em terceiro, nove décimos de segundo atrás do Brasil. A equipe de revezamento brasileira contava com Haroldo, Manoel e João, além de Aristarco de Oliveira. Nas tomadas parciais, Manoel foi o mais rápido dos quatro. Ele declarou que, naquele momento, ele percebeu que sua especialidade e futuro eram os 100m livre, e o costas era apenas um subproduto. Este clarão, esta consciência de onde residia seu verdadeiro talento resultou, em pouco tempo, num salto de melhora. Quanto ao Sul-Americano, como de esperado, os portenhos levaram o título mais uma vez.

Em setembro de 1956, em dois fins de semana seguidos, no Rio e em São Paulo, Haroldo Lara quebrou e repetiu o recorde nacional dos 100m livre, em piscina de 50m, marcando 57s8, recorde este que estava nas mãos de Boghossian desde 1948. Dois meses depois, na nova e majestosa piscina do Vasco da Gama, Manoel dos Santos não conseguiu obter o índice olímpico para a prova, por dois décimos de segundo. Ele se confortou com o pensamento de que na próxima ele iria. A participação da natação brasileira na olimpíada em Melbourne, Austrália, representou um ponto baixo na nossa história. Refletindo nosso talento existente nos anos de 1954 até 1957, não houve um herói salvador, e ficamos de fora de todas as finais.

O Velocista Se Aperfeiçoa

Em 1957, finalizado o secundário em Rio Claro, Manoel dos Santos se mudou para Santos. A escolha da nova cidade se deveu à entrada na vida dele de Minoru Hirano, seu novo técnico, mestre e quase pai. Hirano entrou pra natação pelas vias do serviço de tradução, exercido durante a estada dos Peixes Voadores no Brasil, em 1950. Foi muito conhecimento natatório adquirido acompanhando e decifrando os olímpicos e recordistas mundiais japoneses. Manoel foi morar com a família de Hirano e treinar no Clube de Regatas Internacional. No fim dos anos 50, a metragem dos treinamentos, mesmo no Brasil, começou a aumentar substancialmente. Hirano foi contra a corrente. Ele fazia Manoel nadar uns mil metros e depois trabalhava perna, posicionamento de braçada, ângulo do queixo etc., e finalizava com uma meia dúzia de tiros de 25m. Muitas vezes ele não podia estar presente aos treinos, e Manoel chegava sozinho para a sessão com um papelzinho na mão ou a sequência decorada na cabeça.

Em dezembro de 1957, Manoel bateu o recorde nacional de Haroldo Lara e sul-americano do argentino Pedro Galvão, em Santos, em piscina de 25 metros (ainda válido naquele ano), marcando 56s5. Na sequência, em fevereiro de 1958, foi realizado o Sul-Americano seguinte, em Montevideo. Pela primeira vez na história de trinta anos e catorze edições do torneio, o vencedor dos 100m livre venceu a prova com folga, não na batida de mão, mas com dois segundos e meio de frente ou quase cinco metros de distância. Seu nome, Manoel dos Santos. O único brasileiro até então, além de Armando Freitas em 1939, a conquistar este ouro. A medalha de prata foi para o quase invencível Ismael Merino Martínez, o peruano tricampeão da prova em 52, 54 e 56. O tempo de Manoel nas eliminatórias, 56s6, representou novo recorde sul-americano, já que a partir de 1958, todas as federações internacionais oficializaram a regra de só considerar válidos os recordes em piscina de 50 metros.

Manoel ajudou o Brasil a varrer todos os ouros das três provas de revezamento e conquistar os imprescindíveis pontos duplos destes eventos. Ele não pôde fazer mais porque a prova dos 200m livre foi retirada da programação do Sul-Americano para igualá-la ao programa olímpico. Sylvio Kelly ganhou os 400m livre, João Gonçalves levou as provas de costas e Otávio Mobiglia as de peito e, no feminino, Silvia Bitran venceu todas as provas do nado livre. Finalmente, 27 anos depois do seu primeiro título, o Brasil reconquistava o título máximo do nosso subcontinente. Esta onda positiva na nossa natação iria crescer a reboque da fenomenal performance de Manoel nos anos seguintes, muito maior que qualquer experiência natatória que o Brasil já tinha vivenciado até então. Não deixa de ser apropriado notar que aqueles eram os anos dourados de JK, o ano da nossa primeira Jules Rimet, os tempos de surgimento da Bossa Nova e, no pequeno mundo dos amantes da natação, a época de nosso Sputnik, Jato, o homem mais rápido do mundo na água.

Manoel e o Rei Pelé

Manoel e o Rei Pelé

No ano seguinte ao Sul-Americano de Montevideo, veio a primeira viagem para os Estados Unidos. As camas, na vila olímpica montada na universidade de Chicago, eram daquelas de colchão mole americano, estranhas e desconfortáveis para alguém que cresceu dormindo em cama dura de colégio de internato. O corpo dolorido e mal dormido, e as costas que não empinavam mais, afetaram o equilíbrio do nado. Manoel dos Santos, a grande esperança de medalha da natação brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 1959, não passou de um quarto lugar nos 100m livre, nadando acima dos 58s, quando as expectativas giravam em torno dos 56s. Seu currículo de nadador em matéria de Pans ficou, para sempre, aquém das possibilidades do seu talento. Depois do México em 55 e Chicago em 59, Manoel não chegaria até São Paulo em 63.

Seis meses depois, em fevereiro de 1960, foi a vez do campeonato sul-americano em Cali, na Colômbia. Na relativa altitude da cidade andina, os tempos não foram muito bons. Mas Manoel dos Santos cumpriu seu papel razoavelmente, levando o ouro de bicampeão dos 100m livre e liderando nossos revezamentos para conquistar mais dois ouros e uma prata. A peleja contra os argentinos foi muito acirrada, tanto no feminino quanto no masculino. No final, suado, trouxemos o primeiro bicampeonato da história. Cali viu o aparecimento daquele que iria se consagrar, durante a década de 60, como o maior nadador de Sul-Americanos de todos os tempos, o portenho Luis Alberto Nicolao. Aos 15 anos, Nico, futuro recordista mundial dos 100m borboleta e, juntamente com Alberto Zorrila, melhor nadador argentino da história, conquistou seu primeiro ouro individual na sua modalidade mais famosa.

Em 1960, Manoel dos Santos já representava o Pinheiros. Mas ele nunca treinou sob a orientação de Sato, o conhecido técnico pinheirense. Manoel continuou sempre seguindo as diretrizes determinadas por Hirano, seu mestre de Santos. Ele usava a piscina do Pinheiros, e às vezes a do Corinthians, durante o verão e, no inverno, descia a serra e dava suas braçadas no Clube de Regatas Internacional. Em julho de 60, durante os preparatórios finais pré-olímpicos, no Rio de Janeiro, Manoel quebrou convincentemente seu recorde sul-americano dos 100m livre, marcando 55s6. Este feito o posicionou como forte concorrente à medalha olímpica em Roma.

A Única Olimpíada

Em agosto, a equipe brasileira de natação partiu para a Europa. Primeiro, uma parada sem sentido em Portugal, para os Jogos Luso-Brasileiros. Ou melhor, com sentido político, determinado pela chefia militar nos esportes olímpicos brasileiros, típica daqueles tempos. O Major Padilha era nosso eterno chefe de delegação. Em Lisboa, numa piscina com água a 13 graus de temperatura, nossos nadadores competiram contra um time inexistente, que sempre foi a natação de Portugal. O resultado foi uma amigdalite em nossa estrela maior, único nadador brasileiro até então a chegar numa olimpíada com chances reais de escapar do anonimato. Manoel seguiu de Lisboa, sob efeito de antibiótico, aterrissou na cidade aberta e foi para a vila olímpica ficar de molho por mais um dia, longe da piscina. Depois, seriam mais três dias pra se recuperar antes das eliminatórias dos 100m livre, sempre a prova de abertura do programa olímpico naqueles tempos.

Roma, como não poderia deixar de ser, também impressionou a todos com o Estádio Olímpico e vários eventos sendo disputados nos locais da antiguidade. O estádio aquático era imponente, mas as mesas usadas para massagem ainda eram as tradicionais mesas de ping-pong. Numa sexta-feira, dia 29 de agosto de 1960, às 8h30 da manhã, tiveram início as competições de natação com as eliminatórias dos 100m livre masculino. Manoel dos Santos, nadando na raia 4, ganhou a terceira série, com 56s3. Foi o terceiro empatado melhor tempo no geral. Vinte e quatro nadadores passaram para as semis. Tanto Nicolao, como o outro brasileiro, Fernando Nabuco de Abreu, ficaram de fora. Para se classificar foi preciso 58s2. À noite, nas semis, Manoel voltou a vencer, empatado, na mesma terceira série, na mesma raia 4, com o mesmo tempo de 56s3. No geral, agora, ele ficou em quarto lugar empatado. As primeiras três posições foram para os americanos Lance Larson e Bruce Hunter, e o australiano John Devitt, com os tempos de 55s5, 55s7 e 55s8, respectivamente. Para se classificar para a final foi necessário 56s5, tempo do canadense Richard Pound que, muitos anos depois, veio a se tornar famoso como o xerife da WADA, a agência antidoping mundial.

O Ouro Olímpico Que Escorregou Pelas Mãos

No dia seguinte, sábado, às 9h10 da noite, chegou o momento da final. Manoel dos Santos foi escalado para a raia 6. Ele sabia que só teria alguma chance se nadasse um segundo mais rápido do que na véspera. Deu-se o tiro de largada, a saída chapada daqueles dias, e foram quase 40 metros sem respirar. A prova da vida dele. Quando o bom senso gritou e ele se virou para direita para a primeira puxada de ar, Manoel não viu ninguém. Hunter na raia 5, Larson na 4, e Devitt na 3, estavam fora do radar da rápida primeira olhada. Certamente não estavam na frente. Só poderiam estar atrás, e não era pouca a diferença. Aquilo foi desnorteante. Mais algumas braçadas até que Manoel localizasse a posição dos oponentes. Neste ínterim, muito se passou pela cabeça dele, inclusive a possibilidade de ter escapado, tamanho o susto que levou. Nos segundos cruciais de preparação para a virada, virada esta mais complicada em 1960, devido à exigência de toque de mão antes da cambalhota e aos oclinhos inexistentes, Manoel estava um tanto quanto perdido e só foi se achar quando bateu, inesperadamente, seu antebraço na borda da piscina. Quem estava lá viu. Aquele assombro de velocidade bateu bem na frente nos 50m, virou por cima estabanadamente, e saiu de volta atrás. No desespero do azar que surge quando menos se espera, só restou a ele acelerar tudo que tinha novamente. Na linha dos 80 metros, Manoel tinha recuperado a liderança. E ali chegou a hora de pagar o preço do imprevisível. Apesar dele sustentar que morreu nos 20 metros restantes, a diferença final foi de dois décimos de segundo. O ouro envolveu uma das decisões mais conturbadas da história olímpica da natação. Mas Manoel não era parte da controvérsia, já que seu bronze tinha sido claro, no tempo de 55s4, novo recorde sul-americano.

Chegada dos 100 metros livre nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960. Manoel não aparece na foto, mas ele bateu muito perto dos dois primeiros colocados, à frente do americano Hunter que nadou na raia 5. Fonte:

Chegada dos 100 metros livre nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960. Manoel não aparece na foto, mas ele bateu muito perto dos dois primeiros colocados, à frente do americano Hunter que nadou na raia 5. Fonte: 1960 – Comité International Olympique (CIO) – http://www.olympic.org

Manoel dos Santos foi para o pódio feliz com seu bronze. Dando continuidade ao pequeno legado olímpico deixado por seu ídolo Tetsuo, ele se contentou com uma medalha olímpica. Mas em pouco tempo ele perceberia que poderia mais. E mais seria o status de mais rápido do mundo. Esta segurança adquirida foi condição sine qua non para que ele galgasse mais alto.

Podium dos 100m livre nos Jogos Olímpicos de Roma. John Devitt (AUS) em 1o. lugar, Lance Larson (USA) em 2o. e Manoel dos Santos (BRA) em 3o.

Podium dos 100m livre nos Jogos Olímpicos de Roma. John Devitt (AUS) em 1o. lugar, Lance Larson (USA) em 2o. e Manoel dos Santos (BRA) em 3o. Fonte: 1960 – Comité International Olympique (CIO) – http://www.olympic.org

Os três medalhistas dos 100m em Roma: Larsen, Devitt e Manoel dos Santos

Os três medalhistas dos 100m em Roma: Larsen, Devitt e Manoel dos Santos. Fonte: Relatório Oficial da Olimpíada

Em Roma Manoel não pôde fazer mais nada. O revezamento brasileiro 4x100m medley não chegou nem perto das finais e Manoel tinha sido poupado, contra a vontade dele, das eliminatórias. Terminadas as competições de natação, era hora de voltar para casa. A doutrina militar não permitia que os nadadores permanecessem em Roma e assistissem o resto dos jogos olímpicos. Manoel foi privado, assim, de admirar Abebe Bikila entrando descalço no estádio olímpico no cair da noite romana.

Abebe Bikila, sensação em Roma ao vencer a maratona descalço

Abebe Bikila, sensação em Roma ao vencer a maratona descalço

De volta de Roma, Manoel entrou no período típico de relaxamento pós-olimpíada. Perdeu um pouco a forma. Mas no seu caso e na sua época ainda se fazia valer mais o talento do que uma base de treinamento de ciclo longo. De volta à piscina, a recuperação era rápida. O alerta veio numa inesperada derrota de dentro do Brasil. Na azarada piscina do Vasco da Gama, no campeonato brasileiro, no começo de 1961, Manoel ficou com a prata nos 100m livre, marcando 57s8. O vencedor, um segundo inteiro na frente, foi o grande nadador do Paulistano, Athos Procópio de Oliveira, que, além de ter sido um bom nadador do livre, foi nosso melhor costista disparado na primeira metade da década de 60.

A Viagem ao Japão

Os treinamentos voltaram a se intensificar. A motivação para tanto foi a mesma que hoje em dia é parte da rotina de nossos melhores nadadores mas, naquela época, era uma raridade. Manoel foi convidado para participar de uma série de competições internacionais de alto nível, primeiro no Japão, e depois, acidentalmente, nos Estados Unidos. Aqueles anos foram os últimos nos quais a reputação do Japão na natação ainda trazia anualmente os mais talentosos convidados internacionais, principalmente americanos, para participar do campeonato nacional japonês e de outras competições de exibição durante o verão japonês. Esta tradição vinha desde a década de 30, quando japoneses e americanos dominavam completamente o cenário natatório.
Depois de uma ginástica burocrática e política com os cartolas paulistas, que iria ter seu preço cobrado no devido tempo, Manoel partiu para o Japão trazendo consigo Hirano. Lá, ele e o argentino Nicolao, o outro convidado, se juntaram à equipe americana representando a nata mundial, e partiram para um tour de três competições nas ilhas nipônicas. Nicolao e Manoel, por solidariedade geográfica, mas também por pragmatismo de sobrevivência, foram companheiros próximos durante aquela estada. Como muitas vezes acontece com brasileiros e hispânicos no exterior, um viu no outro a ilusão de ser bilíngue, quando na verdade a comunicação se dá através de uma terceira “língua”, um arrastado portunhol. Mas o que ninguém sabia era que ali, entre os dois jovens latinos, um pouco perdidos no oriente e a reboque dos famosos americanos e japoneses, estava guardada escondida metade dos recordes mundiais de velocidade na natação, que em breve seriam revelados para o mundo inteiro de dentro da piscina do Guanabara.

Manoel deu conta do recado dele com louvor. Em Tóquio, no campeonato japonês, ele ficou em primeiro nas eliminatórias, semis e final, com os tempos de 55s1, 55s2 e 55s3, respectivamente. O maior velocista americano, Steve Clark, e japonês, Yamanaka, ficaram pra trás. Os 55s1 representaram novo recorde sul-americano. Naqueles tempos a homologação de recordes levava semanas e, não raro, estes eram quebrados antes de oficializados. Foi o que aconteceu no Japão, porque Manoel levou o ouro também nas competições em Nagóia e Osaka, sendo que nesta última ele abaixou o recorde sul-americano mais um décimo, para 55s cravados, a melhor marca da história até então em competições internacionais. A viagem ao Japão tornou Manoel conhecidíssimo entre nadadores e técnicos americanos e a imprensa esportiva especializada. Foi a constatação de que aquele furor dos primeiros 50 metros na olimpíada de Roma não era acidental. Aliás, alguns passaram a prever um recorde mundial, caso Manoel melhorasse sua única fraqueza, a complicada virada olímpica daqueles tempos.

Na volta do Japão, via Los Angeles, nosso campeão resolveu por um detour no Havaí. Vários dias depois, Manoel, bronzeado, relaxado e destreinado, desembarcou em Los Angeles. Dada a sua recente fama adquirida então, ele foi convidado para participar do campeonato americano naquela cidade e topou a honra. No dia 18 de agosto de 1961, Steve Clark, derrotado sucessivamente por Manoel no Japão, venceu a final dos 100m livre, sob estrondosa torcida. Seu tempo de 54s4 batia a marca mundial prévia de 54s6, do australiano John Devitt, desde janeiro de 1957. Manoel não foi de todo mal, mas ficou em quarto lugar, nadando acima de 55s. Ainda dentro da piscina, ele foi fotografado cumprimentando Clark, para sair na edição da revista Swimming World de setembro de 1961. Só entre os dois, rolou uma promessa ou ameaça amiga. Manoel afirmou categoricamente que, ao voltar para o Brasil, bateria aquele recorde mundial. Clark escutou e não ousou duvidar, como revelaria no futuro. O brasileiro já estava há algum tempo perto demais do topo do mundo para não acreditar ser possível a façanha. Eis aí a diferença psicológica crucial que faz um recordista mundial.

Foto da revista Swimming World de 1961

Foto da revista Swimming World de setembro de 1961

O Recorde Mundial de Hora Marcada

Manoel aterrissou no Brasil, tirou as fotos clássicas, de buquê de flores na mão, na escada do avião e, sem perda de tempo, partiu para os treinamentos com Hirano. Ao solicitar à CBD e FINA a tentativa de quebra de recorde, ele tornou sua promessa pública e deu um passo à frente com a coragem de quem vai ter que se expor perante a todos. O desafio era nada menos do que provar ser o mais rápido nadador do mundo. Mas a maior pressão e motivação vinha do seu compromisso com três pessoas. Com o técnico Hirano, com seu pai e consigo mesmo.

Na segunda-feira, 18 de setembro de 1961, treinado como nunca antes, Manoel partiu de Santos, de automóvel, como se dizia na época, com Hirano no volante, rumo ao Rio de Janeiro. Lá os dois se instalaram por conta própria no Hotel Paysandu, no Flamengo. Estavam preparados para gastar duas diárias cada um, além das refeições de prato feito do hotel. Nos jornais, estava anunciado a data da tentativa para terça-feira, no Guanabara ou Vasco da Gama. Mas o dia seguinte acabou sendo usado para treinamento e adaptação na preferida piscina vizinha ao Mourisco. O dia D foi marcado para quarta-feira, 20 de setembro de 1961.

No dia seguinte, um pouco antes das 4h da tarde, os dois chegaram no Guanabara. Manoel, barbado, uma cisma dele, como dizia. As dependências do clube estavam quase desertas. Ele aqueceu, deu seus tiros de 25, e foi pro vestiário para uma rápida massagem, executada pelo técnico. Ao sair do vestiário, a ficha caiu. Três mil pessoas apareceram do nada, ainda em tempos de ternos e até algum chapéu, para torcer e checar se aquilo era de verdade mesmo. Neste momento, perante tal plateia, Manoel deve ter decidido, um pouco inconscientemente, que usaria a primeira tentativa pra acalmar os nervos. Afinal, ele tinha três chances. Mas como ele racionalizou tal decisão foi com a desculpa do encaixe da virada, seu ponto fraco. Bater a mão na borda e dar a cambalhota olímpica, sem oclinhos, nas águas turvas do Guanabara, era como acertar a faixa do salto triplo. Para Manoel, era necessário mais de uma chance.

Manoel caminha para a largada, com a piscina lotada do Guanabara

Manoel caminha para a largada, com a piscina lotada do Guanabara

A caminhada com todo o calor da torcida para o buscar o recorde mundial

A caminhada com todo o calor da torcida para o buscar o recorde mundial

E assim foi. Na primeira tentativa ele ficou na virada. Sob um silêncio do público duvidoso, ele desceu novamente pro vestiário com Hirano, um pouco arrependido pelo bom tempo de passagem nos 50 metros. Mas aquilo surtiu tanto o efeito relaxante desejado como a raiva necessária. Com todo o apoio psicológico de Hirano, Manoel voltou pra piscina quinze minutos depois, lá pelas 5h da tarde. A torcida, um pouco constrangida, calou-se como num enterro. Dado o tiro, Manoel largou de chapada na raia 4, fotografia dos jornais no dia seguinte, virou sem percalços os 50m em 25s6, levantou a torcida nos 75m em 38s5, e bateu na borda de chegada com um tempo incógnito a todos, por alguns segundos.

Largada para a quebra do recorde mundial

Largada para a quebra do recorde mundial. A torcida se amontoava nas bordas da piscina.

O grupo de cronometristas oficiais era composto pelo triunvirato da natação brasileira, os conselheiros técnicos Júlio Delamare e Maurício Beckenn e o cartola Ruben Dinard de Araújo. Após um breve momento de consultas entre os juízes e apreensão geral do público e do herói dentro d’água, Delamare empunhou o revolver para cima e, com três tiros de festim, confirmou a nova marca mundial, 53s6. O Guanabara entrou em delírio. O momento mais emocionante da carreira de Manoel se deu a seguir. Escondido entre o público presente, tendo viajado sorrateiramente lá de Andradina, depois de negar sua presença no dia da tentativa, surgiu de surpresa o pai de Manoel. Numa fotografia, ou flagrante, como diziam, está registrada a grande felicidade do filho, abraçado ao pai, de um lado, e ao técnico e mestre, do outro.

Manoel dos Santos abraça seu pai e o técnico Hirano logo após a quebra do recorde mundial

Manoel dos Santos abraça seu pai e o técnico Hirano logo após a quebra do recorde mundial – fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos

A braçada final para estabelecer o novo recorde mundial nos 100 livre

A braçada final para estabelecer o novo recorde mundial nos 100 livre

Destaque na revista Swimming World de novembro de 1961 para o recorde quebrado por Manoel dos Santos

Destaque na revista Swimming World de novembro de 1961 para o recorde quebrado por Manoel dos Santos

O recorde mundial durou três anos exatos, até ser batido pelo francês Alain Gottvalles, falecido este ano. Como recorde brasileiro e sul-americano, a marca durou quase onze anos, até ser batida por Ruy Tadeu A. De Oliveira, em Arica, em 1972. A repercussão nacional e internacional foi imediata, desde as matérias da Gazeta ou reportagem da Manchete, até a cobertura na imprensa francesa, liderada pelo L’Equipe. Técnicos e nadadores nos Estados Unidos, incluindo Clark, e Japão se mostraram pouco surpresos com o tempo de Manoel, de certa forma esperado por todos. Não faltou quem o comparasse a seu grande ídolo de infância, Johnny Weissmuller.

Manoel dos Santos e Johnny Weissmuller fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos

Manoel dos Santos e Johnny Weissmuller
fonte: arquivo pessoal de Manoel dos Santos

O Adeus Em Forma

Veio então a última participação internacional do nadador. E que participação! Em fevereiro de 1962, Manoel foi a Buenos Aires ajudar o Brasil arrancar o tricampeonato sul-americano de dentro da casa dos argentinos. Nos 100m, 200m e 400m livre o duelo com Nicolao foi sensacional, com o argentino vencendo nas últimas duas por batida de mão e estabelecendo novos recordes sul-americanos. As pratas de Manoel, com os tempos de 2m7s3 nos 200m e 4m39s8 nos 400m, lhe valeram recordes nacionais que duraram quatro e dois anos respectivamente. Nicolao foi a grande estrela do campeonato e deu sinais do recordista mundial de borboleta que estava para brotar na semana seguinte, no Guanabara, com grande apoio de Manoel. As provas de revezamento decidiram o campeonato e o Brasil levou os três ouros masculinos, em provas disputadíssimas com a Argentina, com Manoel sempre fechando para os brazucas. O Sul-Americano de Buenos Aires mostrou o topo de sua forma, certamente do ponto de vista aeróbico.

Depois, o Pan de 1963, apesar de ter sido em São Paulo, provou estar além de sua paciência e flexibilidade financeira de atleta amador. Com 23 anos recém completados, Manoel foi trabalhar com o pai e começar a ganhar a vida, princípio familiar inquestionável em sua cabeça. A nós, brasileiros admiradores da natação, ele deixou esta singela história de conquistas acima dos nossos horizontes.

O Recorde Mundial em video

Aproveite para rever o recorde mundial de Manoel dos Santos em excelente reportagem exibida pela ESPN Brasil:

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Certificado Manoel dos Santos

 

Manoel dos Santos retribui o carinho do público após receber sua homenagem no Troféu Maria Lenk de 2014 - foto de Ale Koizumi

Manoel dos Santos retribui o carinho do público após receber sua homenagem no Troféu Maria Lenk de 2014 – foto de Ale Koizumi

 

DJAN MADRUGA

DJAN MADRUGA

Individuo pré-disposto a lutar de forma aguerrida por seus propósitos, incrementando seus treinamentos em quantas madrugadas for preciso para chegar lá.

Djan Garrido Madruga: um nome com posicionamento. Uma virtude comprovada pelos estudos de marketing que norteiam a importância do conceito para construção de trajetórias rumo ao sucesso.

Chegar lá, nos primórdios da sua experiência como nadador, significava ser o melhor no Rio. Sem demora passou a ser: tornar-se o melhor do Brasil, ir a Olimpíada e subir ao pódio olímpico.

Não é possível afirmar que ouvir o próprio nome a exaustão ajudou a fortalecer sua mente, mas o fato é que Djan dedicou-se ao extremo, vislumbrou possibilidades, encarou os desafios e tornou-se um atleta extraordinário, colecionador de feitos notáveis. Algumas décadas já se passaram desde a conquista de sua maior honraria, mas ele segue construindo seu legado para o esporte nacional.

Os fatos impressionam e comprovam: Djan é um dos maiores nomes da história da natação brasileira. Por isso, após os reconhecimentos de Tetsuo Okamoto e Piedade Coutinho, é com grande honra e prazer que anunciamos Djan Garrido Madruga como o terceiro nome a figurar no Hall da Fama da Natação Brasileira.

 

O início

Praia de Copacabana. Rio de Janeiro, 1965. O mar calmo motiva a tranquilidade de D. Preciosa Madruga, que dedica seus cuidados ao pequeno Rojer de 1 ano. Djan, com 7 anos incompletos, brinca com um colega como de costume. De repente, uma vala! O garoto não dá pé, perde o amigo de vista, é jogado para fora da arrebentação e fica entregue ao destino, sem meios de lutar contra o mar. Felizmente, um banhista salvou os meninos.

Foto do arquivo pessoal de Djan Madruga explicada pelo próprio Djan da seguinte forma: "simulando natação na praia de Copacabana na época do afogamento com 6 anos"

Foto do arquivo pessoal explicada pelo próprio Djan da seguinte forma: “simulando natação na praia de Copacabana na época do afogamento com 6 anos”

O episódio do quase afogamento fez com que o Sr. Dirceu, o pai, matriculasse Djan na escola de natação da UFRJ na Urca. O objetivo era ter mais segurança nas atividades de lazer, mas logo um professor percebeu que o menino tinha jeito e recomendou o ingresso na equipe do Botafogo. Como petiz, evoluía em todos os estilos, destacava-se no nado de costas e ganhou suas primeiras medalhas.

"Primeiras medalhas de ouro aos 9 anos no Botafogo" DM

“Primeiras medalhas de ouro aos 9 anos no Botafogo” DM

Aos 11 anos, uma estagnação. Os adversários cresceram antes. Djan teve uma fase de desmotivação, mas continuou. Aos 12 anos, chegou a disputar e perder de uma seletiva para o Campeonato Sulamericano. A frustração levou-o a repensar o futuro e ele decidiu mudar de clube.

No Fluminense começou o trabalho com o técnico Denir de Freitas. Djan gostava muito de treinar, passou a dedicar-se às provas de fundo e iniciou um período de evolução impressionante.

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Seleção brasileira

Djan nunca conseguiu uma vaga para um campeonato sulamericano de categoria, porém, aos 15 anos conquistou uma vaga na Seleção Brasileira que disputou o Sulamericano absoluto em Medelin na Colômbia.

"Primeiro sulamericano de adultos com 15 anos, campeão dos 1500m livre, nunca fui aos de base" DM

“Primeiro sulamericano de adultos com 15 anos, campeão dos 1500m livre, nunca fui aos de base” DM

Ainda em 1974, fez sua segunda competição internacional. Disputou o Campeonato Canadense e na sequência o US Open – aberto dos Estados Unidos – na Califórnia. A estrutura surpreendeu, desde o tamanho das arquibancadas, mas principalmente o nível técnico. Retornou ao Brasil com a vontade de voltar e voltar para vencer.

Em 1975, fez 15m56s20 na III Copa Latina de Natação em Las Palmas na Espanha,  tornou-se o primeiro atleta sulamericano a nadar os 1500m livre abaixo dos 16 minutos e ainda alcançou o índice para participação nos Jogos Olímpicos de Montreal.

 

PAN 1975 – Cidade do México

Em sua estreia em Jogos Panamericanos, aos 16 anos, Djan conquistou a medalha de bronze nos 400m e 1500m livre.

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Jogos Olímpicos 1976 – Montreal

Djan fez sua primeira participação nos Jogos Olímpicos aos 17 anos e alcançou resultados surpreendentes.

Montreal_1976

Na eliminatória dos 400m livre fez 3m59s, venceu sua série, quebrou o recorde sulamericano, o recorde olímpico e tornou-se o primeiro homem a nadar abaixo de 4 minutos em Olimpíadas.

Na final, mais superação: 3m57s18 e o quarto lugar.

Nos 1500m livre Djan melhorou em 36 segundos o seu melhor tempo, fez 15m19s84, estraçalhou seu próprio sulamericano e também chegou em quarto lugar.

 

Ainda franzino, cara de menino e resultados espetaculares em Montreal1

Ainda franzino, cara de menino e resultados espetaculares em Montreal1

Os resultados que surpreenderam a todos. 1

Os resultados que surpreenderam a todos. 1

 

Indiana

Com os resultados dos Jogos Olímpicos, Djan recebeu várias ofertas de bolsa de estudos em universidades americanas. Ele percebeu isso como uma oportunidade espetacular em diversos aspectos:

Primeiro porque o pai de Djan era engenheiro da Petrobrás, foi destituído de seu cargo após o golpe militar de 1964 e virou taxista para prover a família. As possibilidades ficaram restritas, havia dificuldade para compra de equipamentos e os filhos estudaram em escola pública. Estudar numa universidade americana abriria mais possibilidades para a vida profissional quando terminasse a carreira de atleta.

Segundo pela logística do dia a dia. No Rio de Janeiro, Djan tinha que andar de ônibus e os deslocamentos entre o clube e a faculdade tomariam um tempo precioso, seja de treino, estudo ou de descanso.

E finalmente pelo treinamento em si. Djan treinava sozinho no Fluminense. Nos EUA treinaria com colegas de altíssimo nível e com um técnico que estava na vanguarda dos conhecimentos em biomecânica e fisiologia.

Escolheu a Universidade de Indiana, foi cursar Educação Física e treinar com Doc Counsilman, o mesmo treinador de Mark Spitz.

 

 

 

 

 

 

Obstinação pelo pódio olímpico

Depois da fantástica participação em Montreal, o céu passou a ser o limite para Djan Madruga. Em seu planejamento até o pódio olímpico uma fixação: ganhar do campeão e recordista olímpico Brian Goodell. A melhor maneira de alcançar isso, na mente de Djan, era treinando com ele.

Em 1977, Djan foi para Mission Viejo treinar com outro conceituado técnico americano – Mark Schubert – e dividir a piscina com o alvo de sua fixação.

 

Competições no Brasil

Anualmente, Djan desembarcava no Brasil para participar do Troféu Brasil. Na época não havia limite de participação em provas individuais, e o Fluminense  aproveitava seu potencial para marcar muitos pontos e ganhar títulos.

Em 1978, Djan nadou 9 provas individuais: 100m, 200m, 400m e 1500m livre. 200m costas. 100m e 200m borboleta. 200m e 400m medley. E três revezamentos 4x100m, 4x200m livre e 4x100m medley. Ganhou todas. Isso mesmo, 12 medalhas de ouro em uma única edição do Troféu Brasil.

Na edição seguinte, os dirigentes limitaram o número de participações dos atletas em 5 provas individuais.

Ao longo de toda sua carreira, venceu 50 provas no Troféu Brasil. Importante frisar que naquela época, embora o Troféu José Finkel já existisse, era uma competição de pequeno porte, portanto o único evento que reunia todos os grandes nomes da natação brasileira no ano, era o Troféu Brasil.

 

O senhor da América do Sul

Em 1979, Djan monopolizou todos os recordes do continente nas provas do nado livre. Isso mesmo, dos 100m aos 1500m todos os recordes eram dele.

Esse feito já havia sido alcançado pelo argentino Alberto Zorilla, que foi campeão olímpico na década de 20, mas nunca mais foi repetido.

Além disso, ele também foi recordista sulamericano nas provas de 200m costas, 200m medley e 400m medley. E brasileiro dos 200m borboleta.

Capa da edição da NADO LIVRE publicada após a quebra do recorde dos 100m livre e unificação dos recordes dos 100m aos 1500m. 5

Capa da edição da NADO LIVRE publicada após a quebra do recorde dos 100m livre e unificação dos recordes dos 100m aos 1500m. 5

 

PAN 1979 – San Juan

Numa época em que os Estados Unidos enviavam seus melhores atletas para disputar os Jogos Panamericanos, para conquistar uma medalha de ouro no PAN, na maioria das vezes era preciso ganhar do campeão olímpico.

San Juan 1979

Em Porto Rico, Djan ganhou do vice, conquistou a prata nos 400m e 1500m livre e mais algumas medalhas. Ao todo, meia-dúzia, sendo 3 de prata e 3 de bronze. Um recorde para um único atleta brasileiro em todas as edições dos Jogos, que só foi superado por Thiago Pereira na edição de 2007.

Djan e as 6 medalhas conquistadas no PAN. Mais um recorde na carreira.

Djan e as 6 medalhas conquistadas no PAN. Mais um recorde na carreira.

 

Copa do Mundo

Na primeira edição da Copa FINA, realizada em Tóquio no Japão, Djan foi o único atleta sulamericano a conquistar uma medalha de ouro. Venceu a prova dos 400m e segundo reportagem da revista Nado Livre, deslumbrou o público japonês.

 

Universíade

Essa competição era conhecida como os Jogos Olímpicos para atletas universitários e era muito badalada na época do amadorismo no esporte, pois a maioria dos atletas do topo dos rankings mundiais, em diversas modalidades esportivas, era universitário. Naquela época, habitualmente as carreiras encerravam-se após a graduação e as pessoas passavam a dedicar-se a vida profissional.

E nesse contexto, Djan ganhou a medalha de ouro nos 400m medley na Universíade da Cidade do México em 1979 e ainda conquistou a medalha de prata nos 200m costas.

 

US Open 1980

Essa competição foi realizada no mês de abril, em Austin, no estado do Texas e tornou-se um evento muito especial para Djan:

Lembram que em 1974 em sua 1ª participação no US Open ele disse que queria voltar e vencer? Ele venceu, os 800m livre e os 400m medley.

Lembram que após Montreal ele fixou como meta ganhar do campeão olímpico Brian Goodell? Ele ganhou, nos 400m, 800m e 1500m livre.

"Enfrentando um grande rival, o campeão olímpico Brian Goodell na raia 4, eu na 6, demorei 4 anos até vencê-lo no US Open de 1980, para isso, tive de me mudar e treinar junto com ele e seu treinador Mark Schubert em Mission Viejo" DM

“Enfrentando um grande rival, o campeão olímpico Brian Goodell na raia 4, eu na 6, demorei 4 anos até vencê-lo no US Open de 1980, para isso, tive de me mudar e treinar junto com ele e seu treinador Mark Schubert em Mission Viejo” DM

Os tempos foram excelentes:

3m53s91 nos 400m livre – recorde sulamericano

4m25s30 nos 400m medley – recorde sulamericano

7m59s85 nos 800m livre – recorde sulamericano e segunda melhor marca de todos os tempos (assista abaixo o vídeo desta espetacular performance).

E de quebra, teve finalmente sua foto publicada na matéria sobre torneio que foi publicada na Swimming World, principal revista de natação do mundo.

"Matéria na Swimming World em 1980 sobre o campeonato americano realizado em abril. Venci pela 1a vez após tentar por 5 anos" DM

“Matéria na Swimming World em 1980 sobre o campeonato americano realizado em abril. Venci pela 1a vez após tentar por 5 anos” DM

 

Jogos Olímpicos 1980 – Moscou

Moscou_06

 

Os resultados alcançados no US Open, o boicote da equipe americana e todo histórico da carreira geravam na população brasileira, em toda comunidade aquática e no próprio Djan, uma grande expectativa por medalhas.

Importante citar que em Moscou aconteceu a 20ª edição das Olimpíadas da Era Moderna e até aquela altura o Brasil havia conquistado somente 16 medalhas, considerando todos os esportes. Duas delas foram na natação, com Tetsuo Okamoto em 1952 e com Manoel dos Santos em 1960.

Os programas esportivos, a revista Manchete e até o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues abriu espaço em sua coluna no Jornal dos Sports para “pedir” a medalha ouro.

O voo de Los Angeles a Moscou durou cerca de 30 horas e aconteceu 5 dias antes da primeira prova. Um período muito curto de aclimatação diante da diferença de fuso horário e considerando que no destino estava a competição das competições.

A primeira prova foi os 1500m livre e antes da eliminatória Djan cortou o pé. Foi para o bloco de partida desconcentrado pelo acidente, nadou mal, 34 segundos pior que no US Open e não passou das eliminatórias. Foi um baque enorme para ele e um choque para a torcida brasileira.

A dúvida se instalou na mente de Djan sobre o que estaria por vir e a possibilidade de realizar o sonho do pódio olímpico.

A prova seguinte era o revezamento 4x200m livre, aquela em que em sua avaliação tinha menores chances de ganhar a medalha, ainda mais, diante da performance dos seus colegas na prova dos 200m livre.

O que aconteceu foi absolutamente surpreendente: Jorge Fernandes, Cyro Delgado e Marcus Mattioli deram um show de superação! Cada um melhorou cerca 2s do tempo da prova individual e Djan fechou como o grande campeão que sempre foi, segurando  adversários e levando a equipe ao pódio olímpico: medalha de bronze para o Brasil!

Djan, Cyro, Mattioli e Jorge no pódio olímpico.

Djan, Cyro, Mattioli e Jorge no pódio olímpico.

O tempo 7m29s30 foi três segundos melhor que o tempo da eliminatória e nove segundos melhor que o recorde sulamericano anterior obtido no PAN de San Juan. A marca que permaneceu por 12 anos.

Clique aqui para ver o resultado. A diferença entre o segundo e o sétimo colocado foi de apenas 2s22. Veja abaixo o vídeo dessa prova.

Retomada a confiança e com a pressão diminuída por já ter conseguido uma medalha, Djan classificou-se com o 3º tempo para a final dos 400m livre. Na final, fez 3m54s15 e chegou em 4º lugar, 20 centésimos atrás do terceiro colocado.

Acompanhe a prova publicada no youtube. Essa foi a última edição das Olimpíadas em que os países podiam ter três representantes por prova.

 

Nos 400m medley, caiu para nadar a final na raia 1, passou o parcial do costas em primeiro, perdeu terreno no nado de peito, não conseguiu recuperar no crawl, marcou 4m26s81 e ficou em 5º lugar.

Assista prova e veja que curioso os nomes no placar e a locução em russo.

 

A Olimpíada não foi a que Djan sonhou e planejou, mas são grandes feitos, coroados com um metal bronzeado que o coloca para sempre na história da nossa natação.

 

Mudança de foco

Cansado dos longos anos de treinos insanos, sem perspectiva de realizar um novo ciclo olímpico com a mesma intensidade, Djan diminuiu o ritmo na piscina e passou a focar nos estudos. Afinal, uma medalha olímpica é um marco para toda a vida, mas não garante o futuro de ninguém.

Após a graduação, Doc Counsilman convidou-o para ser seu assistente em Indiana, abriu-se a oportunidade de Djan ingressar no mestrado e continuar treinando ali. Era o ideal para Djan  que já projetava uma carreira como treinador de natação. Ele valoriza muito a importância de Counsilman, não só como treinador, mas como um mentor para a sequencia de sua trajetória pessoal e profissional.

"Doc me preparou como ser humano. O profissional que sou devo a ele. Claro que acertou meu estilo e me incluiu num seleto grupo com Mark Spitz, Jim Montgomery e Gary Hall Sr, mas o melhor veio depois. Ele me educou, me deu uma bolsa para fazer o mestrado, me deu a oportunidade única de ser seu assistente técnico por 2 anos e aprender ciência e prática da natação como pouquíssima gente no mundo teve oportunidade. Ainda botou na minha cabeça que ao voltar para o Brasil teria que construir minha piscina para ensinar as pessoas a nadar com boa técnica. Doc para mim foi como um pai/mestre, não foi pouco não, e rendo minha gratidão profunda a ele que deixou esse planeta em 2004 com um legado reconhecido pelos americanos como sendo o maior treinador de todos os tempos" DM

“Doc me preparou como ser humano. O profissional que sou devo a ele. Claro que ele acertou meu estilo e me incluiu no seleto grupo onde figuravam Mark Spitz, Jim Montgomery e Gary Hall Sr, mas o melhor veio depois. Ele me educou, me deu uma bolsa para fazer o mestrado, me deu a oportunidade única de trabalhar como seu assistente técnico por 2 anos e aprender ciência e prática da natação como pouquíssima gente no mundo teve oportunidade. Ainda botou na minha cabeça que ao voltar para o Brasil teria que construir minha piscina para ensinar as pessoas a nadar com boa técnica. Doc para mim foi como um pai/mestre, não foi pouco não, e rendo minha gratidão profunda a ele que me influenciou tanto e deixou esse planeta em 2004 com um legado reconhecido pelos americanos como sendo o maior treinador de todos os tempos” DM

Ele não repetiu mais seus melhores tempos mas seguiu muito competitivo.

Em 1982 foi o primeiro nadador brasileiro a realizar treinamento de altitude no México. No mesmo ano participou do Campeonato Mundial em Guayaquil no Equador, junto com seu irmão Rojer, que foi finalista na prova de 400m medley.

"Com o irmão Roger, a genética da família Madruga produziu dois nadadores de fundo finalistas em mundiais" DM

“Com o irmão Rojer, a genética da família Madruga produziu dois nadadores de fundo finalistas em mundiais” DM

Nadou seu terceiro PAN em Caracas, na Venezuela em 1983, ganhando mais duas medalhas de prata em provas de revezamento.

Caracas_02

Nadou sua terceira Olimpíada em Los Angeles, 1984. Foi 4º colocado na Final B dos 200m costas e participou das provas de revezamento.

LosAngeles_02

Em 1982 começou a abrir seus horizontes e participar de provas de Triatlo, logo após o surgimento dessa modalidade esportiva. Em 1984, participou do IRONMAN do Havaí e quebrou o recorde na parte da natação. Competiu na modalidade até 1987 sendo um dos grandes incentivadores do início do Triatlo no Brasil.

“Triathlon o esporte que me levou a nunca parar de nadar. Eu engrenei nele em 1983 fiquei até 1988, e depois fui direto para o master onde estou até hoje” - a foto é na Avenida Vieira Souto, tirada na vitória do Triathlon Internacional do Rio em 1985. Essa prova era o principal triathlon da América do Sul e fechava toda a orla do Rio. Tinha na época, um status igual ao maratona do Rio pois atraia muitos estrangeiros pelo prêmio oferecido. Os organizadores eram do grupo Jornal do Brasil que dedicavam grande cobertura ao acontecimento.

“Triathlon o esporte que me levou a nunca parar de nadar. Eu engrenei nele em 1983 fiquei até 1988, e depois fui direto para o master onde estou até hoje” DM – a foto é na Avenida Vieira Souto, tirada na vitória do Triathlon Internacional do Rio em 1985. Essa prova era o principal triathlon da América do Sul e fechava toda a orla do Rio. Tinha na época, um status igual ao maratona do Rio pois atraia muitos estrangeiros pelo prêmio oferecido. Os organizadores eram do grupo Jornal do Brasil que dedicavam grande cobertura ao acontecimento.

Em 1988 passou a promover eventos. Em 15 anos foram mais de 200 dos mais diversos esportes. Na década de 90, a Djan Madruga Promoções trouxe ao Brasil os Duelos de Natação, que encontraram espaço de transmissão na TV aberta, na extinta Rede Manchete. Uma novidade antes da chegada das tevês a cabo ao país.

Em 1998 inaugurou a Academia Djan Madruga no Recreio dos Bandeirantes no Rio de Janeiro. Sua iniciativa promove a diferença na vida dos seus alunos através de atividade física bem orientada.

O sonho de ser treinador, adiado por longos anos, ganhou espaço ali. Não na intensidade, nem no nível em que havia imaginado, mas aconteceu.

Djan tem um engajamento político e foi Secretário Nacional de Esporte do Governo Federal por dois anos, designado como responsável pelo programa Bolsa Atleta. Participou da campanha que escolheu o Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Em 2010, Djan formalizou junto a CBDA, o Desafio dos 800 – um estímulo ao desenvolvimento dos fundistas do Brasil. O primeiro atleta que superar o tempo do seu antigo recorde sulamericano de 7m59s85 nadando sem trajes tecnológicos, receberá do próprio Djan a quantia de 5 mil dólares.

Hoje atua na CBDA e é responsável pela TV CBDA, programa que valoriza os atletas e transmite via internet as competições que não são transmitidas via TV a cabo.

Seu legado ao esporte não para de crescer. Em 2013 liderou a vitoriosa campanha que impediu a demolição do Parque Aquático Julio Delamare, palco de tantas competições e lugar de promoção do bem-estar da população fluminense.

Djan nunca parou de nadar. Gosta muito. De treinar e de competir. Em anos de mundiais de master da FINA, intensifica seus treinos e vai reencontrar antigos rivais e experimentar um deja vu de suas épocas áureas.

Recordista mundial nos 400m medley, categoria 45+ em 2004. Riccione, Italia.

Recordista mundial nos 400m medley, categoria 45+ em 2004. Riccione, Italia.

Já quebrou 4 recordes mundiais em diferentes categorias, ganhou 12 medalhas de ouro em mundias masters da FINA e inspira muitos publicando seus treinos no Facebook.

É uma história de devoção ao esporte e uma coleção de feitos notáveis do atleta mais completo que tivemos em nossa natação. Marcas extraordinárias, recordes duradouros e uma medalha olímpica. Por isso a partir de agora ele tem seu nome eternizado no Hall da Fama da Natação Brasileira.

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Slideshow em homenagem a Djan Madruga:

 

Algumas publicações da época

Entrevista para a  Revista Nado Livre, número 1, 1979

 

Revista Nado Livre, número 3, 1979

 

Swimming World, 1980

USOpen ouro

 

 

 

 

 

 

 

Referências

1 Comitê Olímpico Brasileiro (2004). Sonho e Conquista: a Participação do Brasil nos Jogos Olímpicos do Século XX. Rio de Janeiro.

2 Guerrero, Luis Antonio (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.2, pp 8-9. SBR Editora e Artes Gráficas.

3 Guerrero, Luis Antonio; Segura, Ailton José; Chaer, Márcio Osmar (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.2, pp 10. SBR Editora e Artes Gráficas.

4 Junqueira, Pedro (2008). Rumo a Moscou – parte III (final). Best Swimming. Publicado em 26 de junho de 2008.

5 Leite, Joel; Guerrero, Luis Antonio; Segura, Ailton José; Chaer (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.3, pp 6-9. SBR Editora e Artes Gráficas.

6 Madruga, Djan. Perfil Atlético no site oficial. www.djanmadruga.com.br. Criart design. Página visitada em 14 de setembro de 2013.

7 Pussieldi, Alexandre (2010). Desafio dos 800 oficializado. Blog do Coach. Publicado em 19 de abril de 2010.

8 Takata Gomes, Daniel (2012). Um Caso de Amor com o Esporte. Revista Swim Channel. 4a edição. Editora Swim Channel Ltda.

 

Esse post foi elaborado por Fernando Cunha Magalhães com contribuição de Djan Madruga, Daniel Takata Gomes, Carlos Dudorenko, Marcelo Menezes, Renato Cordani e Rodrigo Munhoz.

 

PIEDADE COUTINHO

PIEDADE COUTINHO

As guerras do século passado privaram muitos atletas de alcançarem a glória máxima. Devido à Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, três Jogos Olímpicos tiveram que ser cancelados. E alguns feitos históricos deixaram de ser obtidos.

Por exemplo, nos Jogos de 1916 que não existiram, certamente o americano Duke Kahanamoku teria sido ouro nos 100m livre. Afinal, havia vencido em 1912 e venceria em 1920. Ou seja, teria sido o primeiro tricampeão olímpico na natação. Mas a história teve que esperar até 2012, sim, quase 100 anos para que Michael Phelps se tornasse o primeiro homem a vencer a mesma prova na natação em três Olímpíadas.

Memorial para Duke Kahanamoku na praia de Waikiki - Hawaii - Autor: Cristo Vlahos

Memorial para Duke Kahanamoku na praia de Waikiki – Hawaii –  Crédito: Cristo Vlahos

O Brasil também foi prejudicado. Maria Lenk bateu recordes mundiais no nado peito em 1939 e chegaria à Olimpíada de 1940 como favorita. O evento foi cancelado, e o país só foi ter seu primeiro campeão olímpico na natação em Cesar Cielo em 2008.

Outra brasileira também poderia ter alcançado a glória em 1940 e 1944. Seu nome era Piedade Coutinho. Estava no auge da carreira e, apesar de não ter o mesmo status de Maria Lenk, também poderia brigar por medalhas. Tivesse ela nadado as duas Olimpíadas canceladas, terminaria a carreira com cinco Olimpíadas disputadas – havia competido em 1936 e ainda nadaria em 1948 e 1952. Somente em 2004 nadadores conseguiram alcançar a marca de cinco Olimpíadas – sendo um deles brasileiro, Rogério Romero.

Tokyo 1940 - Por pouco não ocorreu em Tóquio o melhor desempenho olímpico da natação feminina brasileira

Tokyo 1940 – Por pouco não ocorreu em Tóquio o melhor desempenho olímpico da natação feminina brasileira

Mas o “se” é um exercício difícil e a história não o leva em consideração. Por isso, vamos nos ater aos fatos. E eles comprovam: Piedade Coutinho é um dos maiores nomes da história da natação brasileira. Entre mulheres, ninguém tem melhores resultados em Olimpíadas. Por isso, depois de Tetsuo Okamoto, é com grande honra e prazer que anunciamos Piedade Coutinho como o segundo o nome a figurar no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Piedade Coutinho - Cortesia de Henrique Nicolini

Piedade Coutinho – Cortesia de Henrique Nicolini

 

O início

As carreiras de Piedade e Tetsuo se cruzam no início da década de 50, quando ela desacelerava sua gloriosa trajetória e ele ascendia rumo aos pódio olímpico. Disputaram juntos os Jogos Pan-Americanos de 1951 e a Olimpíada de 1952. Mas a jornada de Piedade começou muito antes disso, quanto Tetsuo ainda era um bebê.

Piedade Coutinho Azevedo nasceu em 2 de abril de 1920 no Rio de Janeiro, e por lá ficou por toda sua vida de nadadora, defendendo clubes como Guanabara, Vasco e Flamengo. Sua história se confunde com o próprio início da natação competitiva feminina brasileira.

Piedade Coutinho com maiô do Vasco. Crédito: desconhecido

Piedade Coutinho com maiô do Vasco. Crédito: desconhecido

Ela foi beneficiada pela iniciativa e atitude de grandes mulheres que, rompendo barreiras e tradições, começaram a se aventurar em esportes para os quais não tinham abertura no Brasil. A natação era um deles.

Essa iniciativa foi trazida em meados da década de 20 principalmente por famílias europeias, que já estavam mais acostumadas a mulheres no esporte. Em uma travessia no Rio Tietê, a belga Blanche Pironnet não só competiu como derrotou todos os homens1.

A primeira participação em massa de mulheres foi em uma travessia em 1924, em São Paulo, com 8 nadadoras do clube alemão Estela. Conforme relembrou Maria Lenk5, “coube a um pequeno grupo de moças da colônia alemã romper as maiores barreiras antepostas à mulher no desporto pelos costumes e preconceitos locais, ao se apresentar em público para nadar. As restrições encontradas em casa por essas jovens eram menores, porque elas advinham de uma cultura tradicionalmente adepta aos cuidados com o físico.”

Piedade Coutinho com Maria Lenk no retorno dos Jogos Olímpicos de 1936. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade Coutinho com Maria Lenk no retorno dos Jogos Olímpicos de 1936. Crédito: O Globo Sportivo

A imprensa e os intelectuais da época se cativaram e começaram a apoiar a presença de moças em competições. Em 1930, aconteceram as primeiras competições exclusivamente femininas em São Paulo e Rio de Janeiro, com sucesso de participantes e audiência1.

Em 1935, foram realizados, no Rio de Janeiro, o Campeonato Brasileiro e o Campeonato Sul-Americano. Ambos foram os primeiros a contarem com provas femininas. E é aí que Piedade Coutinho surge no cenário nacional. Ela havia começado a treinar em 1934, na recém inaugurada piscina do Clube de Regatas do Guanabara8, que futuramente seria palco dos recordes mundiais de Manoel dos Santos e José Fiolo.

Piscina do Guanabara em 1935, em uma das grandes competições que lá ocorreram, justamente na piscina e no ano que Piedade Coutinho começou a se destacar.

Piscina do Guanabara em 1935, em uma das grandes competições que lá ocorreram, justamente na piscina e no ano que Piedade Coutinho começou a se destacar.

O nível das competições, por serem as primeiras de nível para mulheres na América do Sul, era bastante rudimentar3, e sendo ela uma novata de 15 anos não obteve destaque. A estrela maior brasileira era Maria Lenk, que havia sido a primeira mulher sul-americana a disputar uma Olimpíada em 1932 e vinha desenvolvendo o nado de peito com recuperação dos braços por fora d’água, que daria origem ao nado borboleta.

 

Glória olímpica

Mas Piedade evoluiu de maneira notável no intervalo de um ano, quebrou o recorde brasileiro dos 400m livre e foi convocada para os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Chegou à Alemanha com marcas que lhe davam credenciais nos 100m e 400m livre2. Já em sua primeira prova, um resultado histórico: a 8ª posição nos 100m livre foi a melhor colocação da natação brasileira olímpica até então. Interessante notar que, apesar da colocação, ela não foi finalista. Motivo: somente sete atletas se classificavam para as finais naquela Olimpíada (as três primeiras de cada uma das semifinais, mais a nadadora com o próximo tempo mais rápido).

Berlin 1936

Dias depois, caiu para sua melhor prova, os 400m livre. Já na eliminatória, recorde sul-americano e terceiro melhor tempo no geral. Na semifinal, aumentou um pouco o tempo, mas não teve dificuldades para se classificar para a grande final – que por sinal contou com oito atletas, pois, além das três que venceram cada semifinal, o próximo tempo mais rápido foi dividido por duas nadadoras, que foram admitidas. Na final, Piedade Coutinho terminou na quinta posição, com 5min35s2, novo recorde sul-americano. Foi a primeira final olímpica da natação brasileira. Não só isso: foi o melhor desempenho em toda aquela Olimpíada de um atleta do Brasil, cuja delegação não conquistou medalhas, e a melhor colocação de uma brasileira em provas olímpicas femininas até então.

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Da esquerda para a direita: Sieglinda Lenk, Piedade Coutinho, Scylla Venâncio, Maria Lenk e Carlos Campos Sobrinho (técnico). Coletada do grupo "Álbum das gerações da natação brasileira", do Facebook.

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Da esquerda para a direita: Sieglinda Lenk, Piedade Coutinho, Scylla Venâncio, Maria Lenk e Carlos Campos Sobrinho (técnico). Coletada do grupo “Álbum das gerações da natação brasileira”, do Facebook.

O feito teve grande repercussão no Brasil. Aos 16 anos, recebeu da imprensa o apelido de Garota Prodígio2. O jornal O Globo publicou uma foto de Piedade nadando a semifinal dos 400m livre, reverenciando sua inédita classificação. Mais do que isso: foi a primeira telefoto publicada pela imprensa do Brasil, uma tecnologia que transmitia fotos por linha telefônica. O próprio jornal trazia uma legenda justificando a escolha e reverenciando o feito: “Quando Piedade Coutinho se classificou para as finais dos 400 metros livre, O Globo resolveu realizar um grande esforço de reportagem para publicar, imediatamente, uma telefotografia que fixasse a façanha extraordinária da nadadora brasileira.” 6 De uma só vez, Piedade Coutinho entrava na história do esporte e da imprensa nacionais.

05 - Piedade Coutinho na primeira telefoto da imprensa brasileira, na Olimpíada de 1936. Crédito: O Globo

Piedade Coutinho na primeira telefoto da imprensa brasileira, na Olimpíada de 1936. Crédito: O Globo

Nos anos seguintes, continuou entre as melhores do planeta. Em 1937, terminou o ano com o terceiro melhor tempo do mundo nos 400m livre e em 1938, tinha dois recordes sul-americanos no nado livre9. Em 1940, melhorou o recorde sul-americano dos 1500m, e de quebra também superou os recordes dos 500m, 800m e 1000m, marcas que na época eram homologadas, nas passagens da prova! 2

 

No lugar do sonho, duas guerras

Na época, Maria Lenk era a maior estrela da natação do país, com recordes mundiais nos 200m e 400m peito, esperança de pódio e até de ouro nos Jogos Olímpicos de 1940. Mas Piedade também tinha resultados que a credenciava para medalhas olímpicas. Muito se fala da decepção de Maria Lenk pelas Olimpíadas de 1940 e 1944 terem sido canceladas por causa da guerra. Mas a frustração para Piedade Coutinho também foi grande: atravessava a melhor fase da carreira e tinha plenas condições de alcançar a glória máxima.

Tanto que continuou brilhando, e não somente nos 400m livre. No Campeonato Brasileiro de 1941, em São Paulo, fez 1min08s5 nos 100m, recorde brasileiro e um dos melhores tempos do mundo da época2, em uma prova que não era exatamente sua especialidade. Com a marca, teria sido finalista olímpica em 1936 e na próxima edição dos Jogos, que só viria a ocorrer em 1948.

Piedade Coutinho. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade Coutinho. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade foi recordista brasileira de todas as distâncias oficiais do nado livre em sua época de nadadora. Mas jamais conseguiu o recorde sul-americano dos 100m. A argentina Jeanette Campbell, fantástica nadadora, conseguira a prata na Olimpíada de 1936 com 1min06s4, recorde que durou 28 anos. O que atesta a força da natação sul-americana na época: três competidoras em nível mundial, com chances de medalhas na Olimpíada que infelizmente não aconteceu. Isso jamais viria a acontecer novamente.

Em 1941, no Sul-Americano organizado em Viña Del Mar, Piedade foi responsável por 50,5 pontos dos 174 conquistados pela equipe feminina, que conquistou o título por países2. Ela e Maria Lenk foram recebidas com festa no Rio de Janeiro pelo Presidente Getúlio Vargas, que desde a instauração do Estado Novo em 1937 se utilizava do esporte para compor o perfil nacionalista que tentava difundir7.

 

Quebrando barreiras

Logo depois, abandonou as competições para se casar e ter um filho. No entanto, em uma decisão inusitada, incomum hoje e muito mais naquela época, voltou à natação em 1943. Imaginem há 70 anos uma mulher romper valores que incompatibilizavam os papeis de mãe, esposa e dona-de-casa com a prática do esporte. Eleonora Schmitt, nadadora brasileira que participou das Olimpíadas de 1948, relembrou: “Ela levava muito a sério. O esporte era tudo pra ela. Acima de casamento, para Piedade, o esporte era o mais importante da vida dela.” 1

A própria Piedade declararia, anos depois: “Existiam muitos tabus naquela época em que a mulher não podia nadar, que a mulher era uma dona de casa, casada com filhos, não podia fazer esportes, era feio. E eu acho que eu dei um exemplo à mulher brasile ira, que nós podemos fazer isso e devemos, não só para darmos exemplo aos nossos filhos, à juventude e para o nosso corpo e nossa saúde também.” 7

Piedade Coutinho ao lado de nadadora não identificada. Crédito: Arquivo Folha

Piedade Coutinho ao lado de nadadora não identificada. Crédito: Arquivo Folha

Com tamanha devoção e dedicação, não parava de se desenvolver e melhorar. Continuou conquistando títulos brasileiros e sul-americanos e superando recordes. Em 1948, foi escolhida a melhor atleta do Brasil. Aos 28 anos, casada e considerada velha para o esporte, continuava quebrando paradigmas. Era vangloriada pela imprensa, como atesta o trecho do periódico Esporte Ilustrado de 22 de abril de 1948:

“Piedade Coutinho é como o vinho. Continua dando combate às suas marcas antigas, ao poderio   da juventude… Ontem, notável feito, hoje, senhora, mãe de um filho, mas sempre firme em busca de novas glorias.” 1

Naquele ano, nadou os Jogos Olímpicos de Londres, o primeiro do pós-guerra. Foi o principal nome do revezamento 4x100m livre que alcançou a final (sexta posição), ao lado de Eleonora Schmitt, Maria da Costa e Talita Rodrigues. A soma das idades de Eleonora (16) e Talita (13) resultava quase na de Piedade.

London 1948

Alcançou novamente a final dos 400m livre, terminando na sexta posição com um tempo ainda melhor do que havia feito na plenitude da juventude, em 1936: 5min29s4. Para ela, no entanto, a final não foi motivo de comemoração. Naquele ano, já havia feito um excepcional 5min20s3, tempo suficiente para a medalha de prata olímpica2. Mas as más condições de viagem para a Europa, estadia e alimentação, além da perda da forma por ter ficado vários dias sem treinar por causa da longa viagem, tiveram seu preço. Infelizmente, esse era o retrato do esporte brasileiro naqueles tempos, condições que também custaram medalhas a Maria Lenk e Manoel dos Santos.

 

O último suspiro

Beirando os 30, com duas Olimpíadas e três finais disputadas, diversos títulos e recordes, era hora de mudar de ares, certo? Não para Piedade Coutinho. Continuou no esporte que amava a tempo de disputar a primeira edição dos Jogos Pan-Americanos, em 1951, em Buenos Aires. Lá, conseguiu dois bronzes, nos 400m livre e 4x100m livre. Aos 31 anos, conseguia suas medalhas mais importantes – talvez não as mais representativas de seus grandes feitos, mas as mais significativas em termos de importância da competição. Além dela, os únicos medalhistas individuais do país foram Willy Otto Jordan, finalista olímpico em 1948, e da estrela emergente Tetsuo Okamoto, vencedor dos 400m e 1500m livre.

Nadadoras dos 100m livre no Campeonato Brasileiro de 1951. Piedade Coutinho, à esquerda, chegou na 2ª posição. As outras, da esquerda para direita: Leda Carvalho (1ª), Lira de Souza (3ª), Marlene Damiani Pinto (4ª), Isabel Ribeiro (5ª) e Denize Junqueira (6ª).

Nadadoras dos 100m livre no Campeonato Brasileiro de 1951. Piedade Coutinho, à esquerda, chegou na 2ª posição. As outras, da esquerda para direita: Leda Carvalho (1ª), Lira de Souza (3ª), Marlene Damiani Pinto (4ª), Isabel Ribeiro (5ª) e Denize Junqueira (6ª).

O último ato de sua carreira foi, como não poderia deixar de ser, no palco olímpico. Aos 32 anos, foi a Helsinque, em 1952. Nenhum atleta que nadou provas individuais era mais velho que ela (somente dois que nadaram revezamentos). Alcançou a semifinal da prova que a consagrou, os 400m livre. No dia seguinte, viu a consagração de Tetsuo Okamoto, bronze nos 1500m livre, o auge de uma história em que ela teve papel de protagonista.

Helsinki 1952

Após deixar as piscinas, foi diretora de natação do Botafogo. Também iniciou um trabalho de recuperação de deficientes físicos, interesse surgido durante a Olimpíada de 1936, quando, em Berlim, visitou um hospital que, através da natação, promovia a recuperação de crianças deficientes3. No final da década de 50, fez campanha para a construção do Lar de Recuperação da Paralisia Infantil, onde desenvolveu atividades aquáticas2. Este trabalho ela deu continuidade em Portugal, onde residiu por oito anos, e também em Brasília3.

Em 1983, retornou ao Clube de Regatas Guanabara, onde ela deu seus primeiros passos na natação competitiva, para praticar natação diariamente, ministrar aulas de aprendizagem aos amigos e se dedicar ao seu hobby favorito, a pintura. Para ela, “o esporte deve ser praticado com a função específica de educar a mente e formar personalidades. O bom esportista precisa saber ganhar e, principalmente, perder. Não é treinar feito um alucinado, visando a vitória a qualquer custo. Se fizer isso, estará esquecendo sua condição de ser humano, para pouco a pouco transformar-se num robô.” 3

Em 14 de outubro de 1997, Piedade Coutinho faleceu. Mas a longevidade de suas conquistas é impressionante. Seu quinto lugar de 1936 se manteve como a melhor colocação olímpica feminina do Brasil até 1964, quando Aida dos Santos foi quarta colocada no salto em altura. Em Jogos Pan-Americanos, uma mulher brasileira voltou a conquistar uma medalha individual na natação somente em 1971, com Lucy Burle nos 100m borboleta. E em Olimpíadas, o Brasil teve que esperar 56 anos para voltar a ter uma mulher finalista, com Joanna Maranhão nos 400m medley em 2004. E mesmo atrapalhada pelo cancelamento de dois Jogos Olímpicos, Piedade é a nadadora brasileira com mais participações, três, empatada com Joanna e Fabiola Molina.

Piedade Coutinho - Foto coletada no grupo "Álbum das gerações da natação brasileira", do Facebook

Piedade Coutinho – Foto coletada no grupo “Álbum das gerações da natação brasileira”, do Facebook

Poderiam ter sido cinco. Assim como medalhas olímpicas poderiam fazer parte de seu currículo. Mas Piedade Coutinho superou tabus que envolviam mulheres no esporte e se dedicar à natação após casar e ter filhos, e passou por cima até de uma Guerra Mundial para deixar seu nome na história do esporte do Brasil. Por isso, a partir de agora tem seu nome eternizado no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Certificado Piedade Coutinho

Slideshow em homenagem a Piedade Coutinho:

 

 

Referências

1 Devide, Fabiano Pries (2003). História das Mulheres na Natação Feminina Brasileira no Século XX: Das Adequações às Resistências Sociaiis. Motus Corporis, v.10, n.1, pp 49-70.

2 Devide, Fabiano Pires (2006). Atletas-referência da Natação Feminina. In: DaCosta, Lamartine. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Confef. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/90.pdf

3 Godoy, Lauret (1998). Adeus “Pitty”. Pesquisa não publicada.

4 Junqueira, Pedro (2008). O Campeonato Sul-Americano de 1935. Best Swimming. Disponível em http://www.bestswimming.com.br/conteudo.php?i=8113

5 Lenk, Maria (1986). Braçadas & Abraços. 2ª ed. São Paulo: Gráfica Bradesco.

6 Louzada, Silvana (2009). Photography and Modernization of the Press in Brazilian Capital: The First Fifity Years of the 20th Century. Brazilian Journalism Research, v.5, n.2, pp 152-168.

7 Mourão, Ludmila (2000). Representação Social da Mulher Brasileira nas Atividades Físico-Desportivas: Da Segregação À Democratização. Revista Movimento, v.2, n.13, pp 5-18.

8 Nicolini, Henrique (2011). Quem Foi Piedade! Blog do Henrique Nicolini. Disponível em http://www.gazetaesportiva.net/blogs/henriquenicolini/2011/04/18/quem-foi-piedade/

9 Titski, Ana Cláudia Kapp; Queiroz, Kauê Fabiano da Silva; Zanlorenzi, Tiago Dimitrow; et al (2008). A Mulher Nadadora na Perspectiva da Revista Educação Physica (1932-1945): Da Estratégia Publicitária À Atleta Potencial. Trabalho apresentado no 1º Encontro da Asociacion Latinoamericana de Estudios Socioculturales del Desporte.

 

Tetsuo Okamoto

Temos o prazer de anunciar o primeiro atleta a figurar no Hall da Fama da Natação Brasileira: TETSUO OKAMOTO!!!

“Se tivesse dois meses de Helsinque eu iria disputar o primeiro posto” – declaração de Tetsuo Okamoto para o jornal Última Hora em agosto de 1952, após conquistar a inédita medalha olímpica para a natação brasileira.

A declaração acima pode parecer exagerada se olharmos simplesmente o resultado da final, onde o norte-americano Ford Konno chegou um pouco mais de 21 segundos a frente de Tetsuo Okamoto, mas se relembrarmos um pouco da história desse grande nadador brasileiro, começamos a acreditar que isso poderia ser possível mesmo.

À esquerda Shiro Hashizume do Japão, ao centro Ford Konno dos Estados Unidos e à direita Tetsuo Okamoto do Brasil. Podium da sensacional final dos 1500 metros dos Jogos Olímpicos de Helsinque de 1952.
À esquerda Shiro Hashizume do Japão, ao centro Ford Konno dos Estados Unidos e à direita Tetsuo Okamoto do Brasil. Podium da sensacional final dos 1500 metros dos Jogos Olímpicos de Helsinque de 1952.

Tetsuo começou a nadar aos sete anos de idade em Marília-SP, pois tinha asma e recebeu a recomendação de seu médico para praticar a natação, como inúmeras crianças que até hoje começam a nadar por esse motivo. Aos quinze anos de idade Tetsuo foi convidado a nadar no Yara Clube de Marília, que possuia uma forte equipe de natação e com isso a qualidade do seu nado foi melhorando e o seu talento começou a ficar evidente na natação brasileira, mas foi somente com dezessete anos que o salto de qualidade de Tetsuo começou a acontecer. No ano de 1949 uma equipe de nadadores japoneses, conecidos como os “Peixes Voadores” fizeram uma longa excursão pela América, ficando dois meses treinando em cidades brasileiras e Tetsuo teve o privilégio de poder acompanhar esses nadadores que eram a atual sensação no mundo. Ao acompanhar os treinamentos, Tetsuo descobriu vários “segredos”, um deles era o volume de treinos, pois em Marília ele treinava uma média de 2.000 metros diários e os “Peixes Voadores” treinavam 10.000 metros, com séries muito diferentes.

HashizumeApós esse intercâmbio Tetsuo voltou determinado para Marília e passou a treinar dois períodos para cumprir a metragem realizada pelos japoneses, dizendo: “Se eles podem, eu também posso”. Em 1950 os treinos deram resultado e Tetsuo conseguiu vencer o campeonato paulista e o brasileiro, superando também o recorde brasileiro nos 400 livre. Esses resultados garantiram a presença de Tetsuo nos Jogos Pan-Americanos de 1951 em Buenos Aires. Algumas semanas antes do Pan, Tetsuo foi o primeiro brasileiro a nadar os 1500 metros abaixo dos 20 minutos, trucidando o recorde brasileiro e o recorde sulamericano com a marca de 19:24:3. No Pan de Buenos Aires o clima era muito hostil com os brasileiros e a competição foi muito tensa, mas isso serviu para motivar Tetsuo a conquistar 2 medalhas de ouro, nos 400 livre e 1500 livre e a prata nos 4×200 livre, com direito a novo recorde sulamericano nos 1500 livre. Tetsuo foi recebido com muita festa e chegou a ganhar um carro de presente em Marília, mas teve que devolvê-lo pois seria proibido de nadar os Jogos Olímpicos se aceitasse o presente.

Tetsuo Okamoto e seu maior rival na época, o mexicano Tonatiuh Gutiérrez, no Pan-Americano de Buenos Aires em 1951.
Tetsuo Okamoto e seu maior rival na época, o mexicano Tonatiuh Gutiérrez, no Pan-Americano de Buenos Aires em 1951.

Após as comemorações do Pan, Tetsuo voltou sua dedicação para os treinos e agora o foco eram os Jogos Olímpicos de Helsinque. Em março de 1952 Tetsuo mostrou que estava preparado e conquistou três ouros no campeonato Sulamericano de Lima, no Peru, vencendo os 400m, 800m e 1500m. Essas provas tiveram dobradinha brasileira, com Sylvio Kelly dos Santos chegando em segundo. Nesse ano, Sylvio passou a ser o grande rival de Tetsuo nas provas de fundo. No mês de maio de 1952 Sylvio Kelly qubrou os recordes sulamericanos de Tetsuo nos 800m e 1500m. Será que a hegemonia de Tetsuo chegara ao fim no Brasil?

Em junho de 52 o inverno chegou com força em Marília e Tetsuo ainda tentou treinar nas águas geladas do Yara Clube de Marília, mas não conseguiu, sendo obrigado a parar os treinos por uma dezena de dias. Em julho Tetsuo partiu para Helsinque, um pouco desanimado pois não era mais o melhor do Brasil, não conseguiu treinar como queria e teria que enfrentar os peixes voadores japoneses nos Jogos Olímpicos. A ida com bastante antecedência para a Europa foi boa, pois ele trocou o rigoroso inverno paulista pelo verão finlandês e teve a grata surpresa de encontrar uma piscina aquecida em Helsinque. Faltavam duas semanas para Tetsuo fazer sua estréia em Jogos Olímpicos e ele resolveu fazer o que sabia fazer muito bem, treinar duro para recuperar o tempo perdido. A estréia de Tetsuo foi nos 400m livre e o tempo obtido foi perto do seu melhor, dando o ânimo necessário para a prova de 1500.

31 de julho de 1952 – a eliminatória dos 1500 livre

Tetsuo nadou muito bem a sua série, chegando em primeiro lugar, com o surpreendente tempo de 19:05:6, recuperando novamente o recorde sulamericano. Sylvio Kelly não nadou bem, fazendo o tempo de 19:26:8, 19 segundos pior do que seu recorde sulamericano, ficando de fora da final dos 1500. As séries eliminatórias dos 1500 foram muito fortes e todos os finalistas superaram o antigo recorde olímpico, fato impensável nos dias de hoje. O peixe voador Shiro Hashizume abaixou o recorde olímpico em 38 segundos, com o tempo de 18:34:0. O americano Ford Konno classificou-se em segundo. Tetsuo classificou-se para a final com o quarto tempo, a frente do campeão olímpico de 1948, o americano Jim Mclane e do outro peixe voador japonês, Yasuo Kitamura. O ouro parecia ter dono, pois Hashizume nadou com facilidade a eliminatória e os outros nadadores iriam brigar pela prata e pelo bronze.

FinalistasA final da prova foi no dia 02 de agosto de 1952. Tetsuo estava muito ansioso na véspera da prova e não conseguiu dormir, passando a noite em claro conversando com o chefe da delegação brasileira.

02 de agosto de 1952 – A grande final dos 1500m livre

Final dos 1500 metros nado livre - foto retirada do site Best Swimming.
Final dos 1500 metros nado livre – foto retirada do site Best Swimming.

A final dos 1500m foi sensacional. Os jornais da época classificaram essa prova como “Um dos maiores duelos aquáticos dos Jogos Olímpicos Modernos”.

Gazeta Esportiva 03 Agosto 1952Reproduzo abaixo as parciais disponíveis da prova, publicadas por Pedro Junqueira no site Best Swimming (O inesquecível Tetsuo – Parte II):

Parciais da FinalHashizume saiu num ritmo muito forte, disposto a definir a prova logo no início, mas Konno e Tetsuo também forçaram muito e acompaharam de perto a arrancada de Hashizume até os 600 metros. Tetsuo cansou e foi perdendo o contato com os líderes da prova e ao mesmo tempo McLane começou a caçar Tetsuo em busca do bronze. Nos 1200 metros Konno e Hashizume viraram praticamente juntos e McLane estava praticamente colado em Tetsuo. Konno realizou uma arrancada sensacional nos últimos 300 metros, atropelando o peixe voador japonês e estabelecendo o novo recorde olímpico da prova, melhorando em 4 segundos a marca obtida por Hashizume na eliminatória. A briga pelo bronze olímpico foi mais sensacional ainda, com McLane virando junto com Tetsuo nos 1300 metros e virando na frente nos 1400 metros. Parecia que o Brasil iria amargar um quarto lugar, já que uma arrancada dessas é quase impossível de reverter nos 1500 metros. Nos 1450 metros McLane ainda virou na frente, mas Tetsuo conseguiu arrancar forças sabe-se lá de onde para bater na frente de McLane por dois décimos de segundo, em uma reviravolta incrível. Tetsuo e McLane fecharam os últimos 100 metros em uma parcial mais forte que Konno, o campeão da prova. O público vibrou muito com essa prova e aplaudiu o podium “japonês” dos Jogos Olímpicos de Helsinque.

Resultado da FinalTetsuo superou os recordes sulamericanos dos 500 metros, 800 metros e 1000 metros nas parciais dessa prova dos 1500, porém esses recordes não foram homologados, já que eram parciais de prova, sem cronometragem oficial.

Seja bem-vindo ao Hall da Fama Tetsuo!

Por obter esta sensacional medalha olímpica nos 1500 metros nado livre e pelas medalhas obtidas nos jogos Pan-americanos, além dos recordes brasileiros e sulamericanos obtidos, Tetsuo Okamoto é o primeiro membro do recém fundado Hall da Fama da Natação Brasileira.

Preparamos um certificado para registrar essa homenagem a Tetsuo Okamoto e pretendemos entregá-lo para algum familiar ou amigo de Tetsuo.

Certificado Tetsuo Okamoto

Nos arquivos abaixo estão alguns recortes de jornal fornecidos por Osmar Baptista Silva, que possui um acervo invejável de reportagens sobre natação. Gostaria de registrar um  agradecimento especial ao Osmar, que preservou esse importante material.

Gazeta Esportiva 05 Junho 1952 Gazeta Esportiva 09 Setembro 1952 Reportagem 03 Agosto 1952 Reportagem_Eliminatoria Ultima Hora 03 Agosto 1952

Seguem algumas referências sobre Tetsuo Okamoto na internet:

Os excelentes artigos de Pedro Junqueira na Best Swimming:

Reportagem da revista Nippon:

Posts de Carlus Maximus e de Alexandre Sakai:

Veja Online:

Terceiro Tempo

Wikipedia:

Tetsuo Okamoto – Wikipedia