DJAN MADRUGA

DJAN MADRUGA

Individuo pré-disposto a lutar de forma aguerrida por seus propósitos, incrementando seus treinamentos em quantas madrugadas for preciso para chegar lá.

Djan Garrido Madruga: um nome com posicionamento. Uma virtude comprovada pelos estudos de marketing que norteiam a importância do conceito para construção de trajetórias rumo ao sucesso.

Chegar lá, nos primórdios da sua experiência como nadador, significava ser o melhor no Rio. Sem demora passou a ser: tornar-se o melhor do Brasil, ir a Olimpíada e subir ao pódio olímpico.

Não é possível afirmar que ouvir o próprio nome a exaustão ajudou a fortalecer sua mente, mas o fato é que Djan dedicou-se ao extremo, vislumbrou possibilidades, encarou os desafios e tornou-se um atleta extraordinário, colecionador de feitos notáveis. Algumas décadas já se passaram desde a conquista de sua maior honraria, mas ele segue construindo seu legado para o esporte nacional.

Os fatos impressionam e comprovam: Djan é um dos maiores nomes da história da natação brasileira. Por isso, após os reconhecimentos de Tetsuo Okamoto e Piedade Coutinho, é com grande honra e prazer que anunciamos Djan Garrido Madruga como o terceiro nome a figurar no Hall da Fama da Natação Brasileira.

 

O início

Praia de Copacabana. Rio de Janeiro, 1965. O mar calmo motiva a tranquilidade de D. Preciosa Madruga, que dedica seus cuidados ao pequeno Rojer de 1 ano. Djan, com 7 anos incompletos, brinca com um colega como de costume. De repente, uma vala! O garoto não dá pé, perde o amigo de vista, é jogado para fora da arrebentação e fica entregue ao destino, sem meios de lutar contra o mar. Felizmente, um banhista salvou os meninos.

Foto do arquivo pessoal de Djan Madruga explicada pelo próprio Djan da seguinte forma: "simulando natação na praia de Copacabana na época do afogamento com 6 anos"

Foto do arquivo pessoal explicada pelo próprio Djan da seguinte forma: “simulando natação na praia de Copacabana na época do afogamento com 6 anos”

O episódio do quase afogamento fez com que o Sr. Dirceu, o pai, matriculasse Djan na escola de natação da UFRJ na Urca. O objetivo era ter mais segurança nas atividades de lazer, mas logo um professor percebeu que o menino tinha jeito e recomendou o ingresso na equipe do Botafogo. Como petiz, evoluía em todos os estilos, destacava-se no nado de costas e ganhou suas primeiras medalhas.

"Primeiras medalhas de ouro aos 9 anos no Botafogo" DM

“Primeiras medalhas de ouro aos 9 anos no Botafogo” DM

Aos 11 anos, uma estagnação. Os adversários cresceram antes. Djan teve uma fase de desmotivação, mas continuou. Aos 12 anos, chegou a disputar e perder de uma seletiva para o Campeonato Sulamericano. A frustração levou-o a repensar o futuro e ele decidiu mudar de clube.

No Fluminense começou o trabalho com o técnico Denir de Freitas. Djan gostava muito de treinar, passou a dedicar-se às provas de fundo e iniciou um período de evolução impressionante.

Denir_04

Seleção brasileira

Djan nunca conseguiu uma vaga para um campeonato sulamericano de categoria, porém, aos 15 anos conquistou uma vaga na Seleção Brasileira que disputou o Sulamericano absoluto em Medelin na Colômbia.

"Primeiro sulamericano de adultos com 15 anos, campeão dos 1500m livre, nunca fui aos de base" DM

“Primeiro sulamericano de adultos com 15 anos, campeão dos 1500m livre, nunca fui aos de base” DM

Ainda em 1974, fez sua segunda competição internacional. Disputou o Campeonato Canadense e na sequência o US Open – aberto dos Estados Unidos – na Califórnia. A estrutura surpreendeu, desde o tamanho das arquibancadas, mas principalmente o nível técnico. Retornou ao Brasil com a vontade de voltar e voltar para vencer.

Em 1975, fez 15m56s20 na III Copa Latina de Natação em Las Palmas na Espanha,  tornou-se o primeiro atleta sulamericano a nadar os 1500m livre abaixo dos 16 minutos e ainda alcançou o índice para participação nos Jogos Olímpicos de Montreal.

 

PAN 1975 – Cidade do México

Em sua estreia em Jogos Panamericanos, aos 16 anos, Djan conquistou a medalha de bronze nos 400m e 1500m livre.

Mexico75

 

Jogos Olímpicos 1976 – Montreal

Djan fez sua primeira participação nos Jogos Olímpicos aos 17 anos e alcançou resultados surpreendentes.

Montreal_1976

Na eliminatória dos 400m livre fez 3m59s, venceu sua série, quebrou o recorde sulamericano, o recorde olímpico e tornou-se o primeiro homem a nadar abaixo de 4 minutos em Olimpíadas.

Na final, mais superação: 3m57s18 e o quarto lugar.

Nos 1500m livre Djan melhorou em 36 segundos o seu melhor tempo, fez 15m19s84, estraçalhou seu próprio sulamericano e também chegou em quarto lugar.

 

Ainda franzino, cara de menino e resultados espetaculares em Montreal1

Ainda franzino, cara de menino e resultados espetaculares em Montreal1

Os resultados que surpreenderam a todos. 1

Os resultados que surpreenderam a todos. 1

 

Indiana

Com os resultados dos Jogos Olímpicos, Djan recebeu várias ofertas de bolsa de estudos em universidades americanas. Ele percebeu isso como uma oportunidade espetacular em diversos aspectos:

Primeiro porque o pai de Djan era engenheiro da Petrobrás, foi destituído de seu cargo após o golpe militar de 1964 e virou taxista para prover a família. As possibilidades ficaram restritas, havia dificuldade para compra de equipamentos e os filhos estudaram em escola pública. Estudar numa universidade americana abriria mais possibilidades para a vida profissional quando terminasse a carreira de atleta.

Segundo pela logística do dia a dia. No Rio de Janeiro, Djan tinha que andar de ônibus e os deslocamentos entre o clube e a faculdade tomariam um tempo precioso, seja de treino, estudo ou de descanso.

E finalmente pelo treinamento em si. Djan treinava sozinho no Fluminense. Nos EUA treinaria com colegas de altíssimo nível e com um técnico que estava na vanguarda dos conhecimentos em biomecânica e fisiologia.

Escolheu a Universidade de Indiana, foi cursar Educação Física e treinar com Doc Counsilman, o mesmo treinador de Mark Spitz.

 

 

 

 

 

 

Obstinação pelo pódio olímpico

Depois da fantástica participação em Montreal, o céu passou a ser o limite para Djan Madruga. Em seu planejamento até o pódio olímpico uma fixação: ganhar do campeão e recordista olímpico Brian Goodell. A melhor maneira de alcançar isso, na mente de Djan, era treinando com ele.

Em 1977, Djan foi para Mission Viejo treinar com outro conceituado técnico americano – Mark Schubert – e dividir a piscina com o alvo de sua fixação.

 

Competições no Brasil

Anualmente, Djan desembarcava no Brasil para participar do Troféu Brasil. Na época não havia limite de participação em provas individuais, e o Fluminense  aproveitava seu potencial para marcar muitos pontos e ganhar títulos.

Em 1978, Djan nadou 9 provas individuais: 100m, 200m, 400m e 1500m livre. 200m costas. 100m e 200m borboleta. 200m e 400m medley. E três revezamentos 4x100m, 4x200m livre e 4x100m medley. Ganhou todas. Isso mesmo, 12 medalhas de ouro em uma única edição do Troféu Brasil.

Na edição seguinte, os dirigentes limitaram o número de participações dos atletas em 5 provas individuais.

Ao longo de toda sua carreira, venceu 50 provas no Troféu Brasil. Importante frisar que naquela época, embora o Troféu José Finkel já existisse, era uma competição de pequeno porte, portanto o único evento que reunia todos os grandes nomes da natação brasileira no ano, era o Troféu Brasil.

 

O senhor da América do Sul

Em 1979, Djan monopolizou todos os recordes do continente nas provas do nado livre. Isso mesmo, dos 100m aos 1500m todos os recordes eram dele.

Esse feito já havia sido alcançado pelo argentino Alberto Zorilla, que foi campeão olímpico na década de 20, mas nunca mais foi repetido.

Além disso, ele também foi recordista sulamericano nas provas de 200m costas, 200m medley e 400m medley. E brasileiro dos 200m borboleta.

Capa da edição da NADO LIVRE publicada após a quebra do recorde dos 100m livre e unificação dos recordes dos 100m aos 1500m. 5

Capa da edição da NADO LIVRE publicada após a quebra do recorde dos 100m livre e unificação dos recordes dos 100m aos 1500m. 5

 

PAN 1979 – San Juan

Numa época em que os Estados Unidos enviavam seus melhores atletas para disputar os Jogos Panamericanos, para conquistar uma medalha de ouro no PAN, na maioria das vezes era preciso ganhar do campeão olímpico.

San Juan 1979

Em Porto Rico, Djan ganhou do vice, conquistou a prata nos 400m e 1500m livre e mais algumas medalhas. Ao todo, meia-dúzia, sendo 3 de prata e 3 de bronze. Um recorde para um único atleta brasileiro em todas as edições dos Jogos, que só foi superado por Thiago Pereira na edição de 2007.

Djan e as 6 medalhas conquistadas no PAN. Mais um recorde na carreira.

Djan e as 6 medalhas conquistadas no PAN. Mais um recorde na carreira.

 

Copa do Mundo

Na primeira edição da Copa FINA, realizada em Tóquio no Japão, Djan foi o único atleta sulamericano a conquistar uma medalha de ouro. Venceu a prova dos 400m e segundo reportagem da revista Nado Livre, deslumbrou o público japonês.

 

Universíade

Essa competição era conhecida como os Jogos Olímpicos para atletas universitários e era muito badalada na época do amadorismo no esporte, pois a maioria dos atletas do topo dos rankings mundiais, em diversas modalidades esportivas, era universitário. Naquela época, habitualmente as carreiras encerravam-se após a graduação e as pessoas passavam a dedicar-se a vida profissional.

E nesse contexto, Djan ganhou a medalha de ouro nos 400m medley na Universíade da Cidade do México em 1979 e ainda conquistou a medalha de prata nos 200m costas.

 

US Open 1980

Essa competição foi realizada no mês de abril, em Austin, no estado do Texas e tornou-se um evento muito especial para Djan:

Lembram que em 1974 em sua 1ª participação no US Open ele disse que queria voltar e vencer? Ele venceu, os 800m livre e os 400m medley.

Lembram que após Montreal ele fixou como meta ganhar do campeão olímpico Brian Goodell? Ele ganhou, nos 400m, 800m e 1500m livre.

"Enfrentando um grande rival, o campeão olímpico Brian Goodell na raia 4, eu na 6, demorei 4 anos até vencê-lo no US Open de 1980, para isso, tive de me mudar e treinar junto com ele e seu treinador Mark Schubert em Mission Viejo" DM

“Enfrentando um grande rival, o campeão olímpico Brian Goodell na raia 4, eu na 6, demorei 4 anos até vencê-lo no US Open de 1980, para isso, tive de me mudar e treinar junto com ele e seu treinador Mark Schubert em Mission Viejo” DM

Os tempos foram excelentes:

3m53s91 nos 400m livre – recorde sulamericano

4m25s30 nos 400m medley – recorde sulamericano

7m59s85 nos 800m livre – recorde sulamericano e segunda melhor marca de todos os tempos (assista abaixo o vídeo desta espetacular performance).

E de quebra, teve finalmente sua foto publicada na matéria sobre torneio que foi publicada na Swimming World, principal revista de natação do mundo.

"Matéria na Swimming World em 1980 sobre o campeonato americano realizado em abril. Venci pela 1a vez após tentar por 5 anos" DM

“Matéria na Swimming World em 1980 sobre o campeonato americano realizado em abril. Venci pela 1a vez após tentar por 5 anos” DM

 

Jogos Olímpicos 1980 – Moscou

Moscou_06

 

Os resultados alcançados no US Open, o boicote da equipe americana e todo histórico da carreira geravam na população brasileira, em toda comunidade aquática e no próprio Djan, uma grande expectativa por medalhas.

Importante citar que em Moscou aconteceu a 20ª edição das Olimpíadas da Era Moderna e até aquela altura o Brasil havia conquistado somente 16 medalhas, considerando todos os esportes. Duas delas foram na natação, com Tetsuo Okamoto em 1952 e com Manoel dos Santos em 1960.

Os programas esportivos, a revista Manchete e até o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues abriu espaço em sua coluna no Jornal dos Sports para “pedir” a medalha ouro.

O voo de Los Angeles a Moscou durou cerca de 30 horas e aconteceu 5 dias antes da primeira prova. Um período muito curto de aclimatação diante da diferença de fuso horário e considerando que no destino estava a competição das competições.

A primeira prova foi os 1500m livre e antes da eliminatória Djan cortou o pé. Foi para o bloco de partida desconcentrado pelo acidente, nadou mal, 34 segundos pior que no US Open e não passou das eliminatórias. Foi um baque enorme para ele e um choque para a torcida brasileira.

A dúvida se instalou na mente de Djan sobre o que estaria por vir e a possibilidade de realizar o sonho do pódio olímpico.

A prova seguinte era o revezamento 4x200m livre, aquela em que em sua avaliação tinha menores chances de ganhar a medalha, ainda mais, diante da performance dos seus colegas na prova dos 200m livre.

O que aconteceu foi absolutamente surpreendente: Jorge Fernandes, Cyro Delgado e Marcus Mattioli deram um show de superação! Cada um melhorou cerca 2s do tempo da prova individual e Djan fechou como o grande campeão que sempre foi, segurando  adversários e levando a equipe ao pódio olímpico: medalha de bronze para o Brasil!

Djan, Cyro, Mattioli e Jorge no pódio olímpico.

Djan, Cyro, Mattioli e Jorge no pódio olímpico.

O tempo 7m29s30 foi três segundos melhor que o tempo da eliminatória e nove segundos melhor que o recorde sulamericano anterior obtido no PAN de San Juan. A marca que permaneceu por 12 anos.

Clique aqui para ver o resultado. A diferença entre o segundo e o sétimo colocado foi de apenas 2s22. Veja abaixo o vídeo dessa prova.

Retomada a confiança e com a pressão diminuída por já ter conseguido uma medalha, Djan classificou-se com o 3º tempo para a final dos 400m livre. Na final, fez 3m54s15 e chegou em 4º lugar, 20 centésimos atrás do terceiro colocado.

Acompanhe a prova publicada no youtube. Essa foi a última edição das Olimpíadas em que os países podiam ter três representantes por prova.

 

Nos 400m medley, caiu para nadar a final na raia 1, passou o parcial do costas em primeiro, perdeu terreno no nado de peito, não conseguiu recuperar no crawl, marcou 4m26s81 e ficou em 5º lugar.

Assista prova e veja que curioso os nomes no placar e a locução em russo.

 

A Olimpíada não foi a que Djan sonhou e planejou, mas são grandes feitos, coroados com um metal bronzeado que o coloca para sempre na história da nossa natação.

 

Mudança de foco

Cansado dos longos anos de treinos insanos, sem perspectiva de realizar um novo ciclo olímpico com a mesma intensidade, Djan diminuiu o ritmo na piscina e passou a focar nos estudos. Afinal, uma medalha olímpica é um marco para toda a vida, mas não garante o futuro de ninguém.

Após a graduação, Doc Counsilman convidou-o para ser seu assistente em Indiana, abriu-se a oportunidade de Djan ingressar no mestrado e continuar treinando ali. Era o ideal para Djan  que já projetava uma carreira como treinador de natação. Ele valoriza muito a importância de Counsilman, não só como treinador, mas como um mentor para a sequencia de sua trajetória pessoal e profissional.

"Doc me preparou como ser humano. O profissional que sou devo a ele. Claro que acertou meu estilo e me incluiu num seleto grupo com Mark Spitz, Jim Montgomery e Gary Hall Sr, mas o melhor veio depois. Ele me educou, me deu uma bolsa para fazer o mestrado, me deu a oportunidade única de ser seu assistente técnico por 2 anos e aprender ciência e prática da natação como pouquíssima gente no mundo teve oportunidade. Ainda botou na minha cabeça que ao voltar para o Brasil teria que construir minha piscina para ensinar as pessoas a nadar com boa técnica. Doc para mim foi como um pai/mestre, não foi pouco não, e rendo minha gratidão profunda a ele que deixou esse planeta em 2004 com um legado reconhecido pelos americanos como sendo o maior treinador de todos os tempos" DM

“Doc me preparou como ser humano. O profissional que sou devo a ele. Claro que ele acertou meu estilo e me incluiu no seleto grupo onde figuravam Mark Spitz, Jim Montgomery e Gary Hall Sr, mas o melhor veio depois. Ele me educou, me deu uma bolsa para fazer o mestrado, me deu a oportunidade única de trabalhar como seu assistente técnico por 2 anos e aprender ciência e prática da natação como pouquíssima gente no mundo teve oportunidade. Ainda botou na minha cabeça que ao voltar para o Brasil teria que construir minha piscina para ensinar as pessoas a nadar com boa técnica. Doc para mim foi como um pai/mestre, não foi pouco não, e rendo minha gratidão profunda a ele que me influenciou tanto e deixou esse planeta em 2004 com um legado reconhecido pelos americanos como sendo o maior treinador de todos os tempos” DM

Ele não repetiu mais seus melhores tempos mas seguiu muito competitivo.

Em 1982 foi o primeiro nadador brasileiro a realizar treinamento de altitude no México. No mesmo ano participou do Campeonato Mundial em Guayaquil no Equador, junto com seu irmão Rojer, que foi finalista na prova de 400m medley.

"Com o irmão Roger, a genética da família Madruga produziu dois nadadores de fundo finalistas em mundiais" DM

“Com o irmão Rojer, a genética da família Madruga produziu dois nadadores de fundo finalistas em mundiais” DM

Nadou seu terceiro PAN em Caracas, na Venezuela em 1983, ganhando mais duas medalhas de prata em provas de revezamento.

Caracas_02

Nadou sua terceira Olimpíada em Los Angeles, 1984. Foi 4º colocado na Final B dos 200m costas e participou das provas de revezamento.

LosAngeles_02

Em 1982 começou a abrir seus horizontes e participar de provas de Triatlo, logo após o surgimento dessa modalidade esportiva. Em 1984, participou do IRONMAN do Havaí e quebrou o recorde na parte da natação. Competiu na modalidade até 1987 sendo um dos grandes incentivadores do início do Triatlo no Brasil.

“Triathlon o esporte que me levou a nunca parar de nadar. Eu engrenei nele em 1983 fiquei até 1988, e depois fui direto para o master onde estou até hoje” - a foto é na Avenida Vieira Souto, tirada na vitória do Triathlon Internacional do Rio em 1985. Essa prova era o principal triathlon da América do Sul e fechava toda a orla do Rio. Tinha na época, um status igual ao maratona do Rio pois atraia muitos estrangeiros pelo prêmio oferecido. Os organizadores eram do grupo Jornal do Brasil que dedicavam grande cobertura ao acontecimento.

“Triathlon o esporte que me levou a nunca parar de nadar. Eu engrenei nele em 1983 fiquei até 1988, e depois fui direto para o master onde estou até hoje” DM – a foto é na Avenida Vieira Souto, tirada na vitória do Triathlon Internacional do Rio em 1985. Essa prova era o principal triathlon da América do Sul e fechava toda a orla do Rio. Tinha na época, um status igual ao maratona do Rio pois atraia muitos estrangeiros pelo prêmio oferecido. Os organizadores eram do grupo Jornal do Brasil que dedicavam grande cobertura ao acontecimento.

Em 1988 passou a promover eventos. Em 15 anos foram mais de 200 dos mais diversos esportes. Na década de 90, a Djan Madruga Promoções trouxe ao Brasil os Duelos de Natação, que encontraram espaço de transmissão na TV aberta, na extinta Rede Manchete. Uma novidade antes da chegada das tevês a cabo ao país.

Em 1998 inaugurou a Academia Djan Madruga no Recreio dos Bandeirantes no Rio de Janeiro. Sua iniciativa promove a diferença na vida dos seus alunos através de atividade física bem orientada.

O sonho de ser treinador, adiado por longos anos, ganhou espaço ali. Não na intensidade, nem no nível em que havia imaginado, mas aconteceu.

Djan tem um engajamento político e foi Secretário Nacional de Esporte do Governo Federal por dois anos, designado como responsável pelo programa Bolsa Atleta. Participou da campanha que escolheu o Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Em 2010, Djan formalizou junto a CBDA, o Desafio dos 800 – um estímulo ao desenvolvimento dos fundistas do Brasil. O primeiro atleta que superar o tempo do seu antigo recorde sulamericano de 7m59s85 nadando sem trajes tecnológicos, receberá do próprio Djan a quantia de 5 mil dólares.

Hoje atua na CBDA e é responsável pela TV CBDA, programa que valoriza os atletas e transmite via internet as competições que não são transmitidas via TV a cabo.

Seu legado ao esporte não para de crescer. Em 2013 liderou a vitoriosa campanha que impediu a demolição do Parque Aquático Julio Delamare, palco de tantas competições e lugar de promoção do bem-estar da população fluminense.

Djan nunca parou de nadar. Gosta muito. De treinar e de competir. Em anos de mundiais de master da FINA, intensifica seus treinos e vai reencontrar antigos rivais e experimentar um deja vu de suas épocas áureas.

Recordista mundial nos 400m medley, categoria 45+ em 2004. Riccione, Italia.

Recordista mundial nos 400m medley, categoria 45+ em 2004. Riccione, Italia.

Já quebrou 4 recordes mundiais em diferentes categorias, ganhou 12 medalhas de ouro em mundias masters da FINA e inspira muitos publicando seus treinos no Facebook.

É uma história de devoção ao esporte e uma coleção de feitos notáveis do atleta mais completo que tivemos em nossa natação. Marcas extraordinárias, recordes duradouros e uma medalha olímpica. Por isso a partir de agora ele tem seu nome eternizado no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Certificado_Djan

Slideshow em homenagem a Djan Madruga:

 

Algumas publicações da época

Entrevista para a  Revista Nado Livre, número 1, 1979

 

Revista Nado Livre, número 3, 1979

 

Swimming World, 1980

USOpen ouro

 

 

 

 

 

 

 

Referências

1 Comitê Olímpico Brasileiro (2004). Sonho e Conquista: a Participação do Brasil nos Jogos Olímpicos do Século XX. Rio de Janeiro.

2 Guerrero, Luis Antonio (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.2, pp 8-9. SBR Editora e Artes Gráficas.

3 Guerrero, Luis Antonio; Segura, Ailton José; Chaer, Márcio Osmar (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.2, pp 10. SBR Editora e Artes Gráficas.

4 Junqueira, Pedro (2008). Rumo a Moscou – parte III (final). Best Swimming. Publicado em 26 de junho de 2008.

5 Leite, Joel; Guerrero, Luis Antonio; Segura, Ailton José; Chaer (1979). Nado Livre – Revista dos Esportes Aquáticos, n.3, pp 6-9. SBR Editora e Artes Gráficas.

6 Madruga, Djan. Perfil Atlético no site oficial. www.djanmadruga.com.br. Criart design. Página visitada em 14 de setembro de 2013.

7 Pussieldi, Alexandre (2010). Desafio dos 800 oficializado. Blog do Coach. Publicado em 19 de abril de 2010.

8 Takata Gomes, Daniel (2012). Um Caso de Amor com o Esporte. Revista Swim Channel. 4a edição. Editora Swim Channel Ltda.

 

Esse post foi elaborado por Fernando Cunha Magalhães com contribuição de Djan Madruga, Daniel Takata Gomes, Carlos Dudorenko, Marcelo Menezes, Renato Cordani e Rodrigo Munhoz.

 

PIEDADE COUTINHO

PIEDADE COUTINHO

As guerras do século passado privaram muitos atletas de alcançarem a glória máxima. Devido à Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, três Jogos Olímpicos tiveram que ser cancelados. E alguns feitos históricos deixaram de ser obtidos.

Por exemplo, nos Jogos de 1916 que não existiram, certamente o americano Duke Kahanamoku teria sido ouro nos 100m livre. Afinal, havia vencido em 1912 e venceria em 1920. Ou seja, teria sido o primeiro tricampeão olímpico na natação. Mas a história teve que esperar até 2012, sim, quase 100 anos para que Michael Phelps se tornasse o primeiro homem a vencer a mesma prova na natação em três Olímpíadas.

Memorial para Duke Kahanamoku na praia de Waikiki - Hawaii - Autor: Cristo Vlahos

Memorial para Duke Kahanamoku na praia de Waikiki – Hawaii –  Crédito: Cristo Vlahos

O Brasil também foi prejudicado. Maria Lenk bateu recordes mundiais no nado peito em 1939 e chegaria à Olimpíada de 1940 como favorita. O evento foi cancelado, e o país só foi ter seu primeiro campeão olímpico na natação em Cesar Cielo em 2008.

Outra brasileira também poderia ter alcançado a glória em 1940 e 1944. Seu nome era Piedade Coutinho. Estava no auge da carreira e, apesar de não ter o mesmo status de Maria Lenk, também poderia brigar por medalhas. Tivesse ela nadado as duas Olimpíadas canceladas, terminaria a carreira com cinco Olimpíadas disputadas – havia competido em 1936 e ainda nadaria em 1948 e 1952. Somente em 2004 nadadores conseguiram alcançar a marca de cinco Olimpíadas – sendo um deles brasileiro, Rogério Romero.

Tokyo 1940 - Por pouco não ocorreu em Tóquio o melhor desempenho olímpico da natação feminina brasileira

Tokyo 1940 – Por pouco não ocorreu em Tóquio o melhor desempenho olímpico da natação feminina brasileira

Mas o “se” é um exercício difícil e a história não o leva em consideração. Por isso, vamos nos ater aos fatos. E eles comprovam: Piedade Coutinho é um dos maiores nomes da história da natação brasileira. Entre mulheres, ninguém tem melhores resultados em Olimpíadas. Por isso, depois de Tetsuo Okamoto, é com grande honra e prazer que anunciamos Piedade Coutinho como o segundo o nome a figurar no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Piedade Coutinho - Cortesia de Henrique Nicolini

Piedade Coutinho – Cortesia de Henrique Nicolini

 

O início

As carreiras de Piedade e Tetsuo se cruzam no início da década de 50, quando ela desacelerava sua gloriosa trajetória e ele ascendia rumo aos pódio olímpico. Disputaram juntos os Jogos Pan-Americanos de 1951 e a Olimpíada de 1952. Mas a jornada de Piedade começou muito antes disso, quanto Tetsuo ainda era um bebê.

Piedade Coutinho Azevedo nasceu em 2 de abril de 1920 no Rio de Janeiro, e por lá ficou por toda sua vida de nadadora, defendendo clubes como Guanabara, Vasco e Flamengo. Sua história se confunde com o próprio início da natação competitiva feminina brasileira.

Piedade Coutinho com maiô do Vasco. Crédito: desconhecido

Piedade Coutinho com maiô do Vasco. Crédito: desconhecido

Ela foi beneficiada pela iniciativa e atitude de grandes mulheres que, rompendo barreiras e tradições, começaram a se aventurar em esportes para os quais não tinham abertura no Brasil. A natação era um deles.

Essa iniciativa foi trazida em meados da década de 20 principalmente por famílias europeias, que já estavam mais acostumadas a mulheres no esporte. Em uma travessia no Rio Tietê, a belga Blanche Pironnet não só competiu como derrotou todos os homens1.

A primeira participação em massa de mulheres foi em uma travessia em 1924, em São Paulo, com 8 nadadoras do clube alemão Estela. Conforme relembrou Maria Lenk5, “coube a um pequeno grupo de moças da colônia alemã romper as maiores barreiras antepostas à mulher no desporto pelos costumes e preconceitos locais, ao se apresentar em público para nadar. As restrições encontradas em casa por essas jovens eram menores, porque elas advinham de uma cultura tradicionalmente adepta aos cuidados com o físico.”

Piedade Coutinho com Maria Lenk no retorno dos Jogos Olímpicos de 1936. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade Coutinho com Maria Lenk no retorno dos Jogos Olímpicos de 1936. Crédito: O Globo Sportivo

A imprensa e os intelectuais da época se cativaram e começaram a apoiar a presença de moças em competições. Em 1930, aconteceram as primeiras competições exclusivamente femininas em São Paulo e Rio de Janeiro, com sucesso de participantes e audiência1.

Em 1935, foram realizados, no Rio de Janeiro, o Campeonato Brasileiro e o Campeonato Sul-Americano. Ambos foram os primeiros a contarem com provas femininas. E é aí que Piedade Coutinho surge no cenário nacional. Ela havia começado a treinar em 1934, na recém inaugurada piscina do Clube de Regatas do Guanabara8, que futuramente seria palco dos recordes mundiais de Manoel dos Santos e José Fiolo.

Piscina do Guanabara em 1935, em uma das grandes competições que lá ocorreram, justamente na piscina e no ano que Piedade Coutinho começou a se destacar.

Piscina do Guanabara em 1935, em uma das grandes competições que lá ocorreram, justamente na piscina e no ano que Piedade Coutinho começou a se destacar.

O nível das competições, por serem as primeiras de nível para mulheres na América do Sul, era bastante rudimentar3, e sendo ela uma novata de 15 anos não obteve destaque. A estrela maior brasileira era Maria Lenk, que havia sido a primeira mulher sul-americana a disputar uma Olimpíada em 1932 e vinha desenvolvendo o nado de peito com recuperação dos braços por fora d’água, que daria origem ao nado borboleta.

 

Glória olímpica

Mas Piedade evoluiu de maneira notável no intervalo de um ano, quebrou o recorde brasileiro dos 400m livre e foi convocada para os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Chegou à Alemanha com marcas que lhe davam credenciais nos 100m e 400m livre2. Já em sua primeira prova, um resultado histórico: a 8ª posição nos 100m livre foi a melhor colocação da natação brasileira olímpica até então. Interessante notar que, apesar da colocação, ela não foi finalista. Motivo: somente sete atletas se classificavam para as finais naquela Olimpíada (as três primeiras de cada uma das semifinais, mais a nadadora com o próximo tempo mais rápido).

Berlin 1936

Dias depois, caiu para sua melhor prova, os 400m livre. Já na eliminatória, recorde sul-americano e terceiro melhor tempo no geral. Na semifinal, aumentou um pouco o tempo, mas não teve dificuldades para se classificar para a grande final – que por sinal contou com oito atletas, pois, além das três que venceram cada semifinal, o próximo tempo mais rápido foi dividido por duas nadadoras, que foram admitidas. Na final, Piedade Coutinho terminou na quinta posição, com 5min35s2, novo recorde sul-americano. Foi a primeira final olímpica da natação brasileira. Não só isso: foi o melhor desempenho em toda aquela Olimpíada de um atleta do Brasil, cuja delegação não conquistou medalhas, e a melhor colocação de uma brasileira em provas olímpicas femininas até então.

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Da esquerda para a direita: Sieglinda Lenk, Piedade Coutinho, Scylla Venâncio, Maria Lenk e Carlos Campos Sobrinho (técnico). Coletada do grupo "Álbum das gerações da natação brasileira", do Facebook.

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Da esquerda para a direita: Sieglinda Lenk, Piedade Coutinho, Scylla Venâncio, Maria Lenk e Carlos Campos Sobrinho (técnico). Coletada do grupo “Álbum das gerações da natação brasileira”, do Facebook.

O feito teve grande repercussão no Brasil. Aos 16 anos, recebeu da imprensa o apelido de Garota Prodígio2. O jornal O Globo publicou uma foto de Piedade nadando a semifinal dos 400m livre, reverenciando sua inédita classificação. Mais do que isso: foi a primeira telefoto publicada pela imprensa do Brasil, uma tecnologia que transmitia fotos por linha telefônica. O próprio jornal trazia uma legenda justificando a escolha e reverenciando o feito: “Quando Piedade Coutinho se classificou para as finais dos 400 metros livre, O Globo resolveu realizar um grande esforço de reportagem para publicar, imediatamente, uma telefotografia que fixasse a façanha extraordinária da nadadora brasileira.” 6 De uma só vez, Piedade Coutinho entrava na história do esporte e da imprensa nacionais.

05 - Piedade Coutinho na primeira telefoto da imprensa brasileira, na Olimpíada de 1936. Crédito: O Globo

Piedade Coutinho na primeira telefoto da imprensa brasileira, na Olimpíada de 1936. Crédito: O Globo

Nos anos seguintes, continuou entre as melhores do planeta. Em 1937, terminou o ano com o terceiro melhor tempo do mundo nos 400m livre e em 1938, tinha dois recordes sul-americanos no nado livre9. Em 1940, melhorou o recorde sul-americano dos 1500m, e de quebra também superou os recordes dos 500m, 800m e 1000m, marcas que na época eram homologadas, nas passagens da prova! 2

 

No lugar do sonho, duas guerras

Na época, Maria Lenk era a maior estrela da natação do país, com recordes mundiais nos 200m e 400m peito, esperança de pódio e até de ouro nos Jogos Olímpicos de 1940. Mas Piedade também tinha resultados que a credenciava para medalhas olímpicas. Muito se fala da decepção de Maria Lenk pelas Olimpíadas de 1940 e 1944 terem sido canceladas por causa da guerra. Mas a frustração para Piedade Coutinho também foi grande: atravessava a melhor fase da carreira e tinha plenas condições de alcançar a glória máxima.

Tanto que continuou brilhando, e não somente nos 400m livre. No Campeonato Brasileiro de 1941, em São Paulo, fez 1min08s5 nos 100m, recorde brasileiro e um dos melhores tempos do mundo da época2, em uma prova que não era exatamente sua especialidade. Com a marca, teria sido finalista olímpica em 1936 e na próxima edição dos Jogos, que só viria a ocorrer em 1948.

Piedade Coutinho. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade Coutinho. Crédito: O Globo Sportivo

Piedade foi recordista brasileira de todas as distâncias oficiais do nado livre em sua época de nadadora. Mas jamais conseguiu o recorde sul-americano dos 100m. A argentina Jeanette Campbell, fantástica nadadora, conseguira a prata na Olimpíada de 1936 com 1min06s4, recorde que durou 28 anos. O que atesta a força da natação sul-americana na época: três competidoras em nível mundial, com chances de medalhas na Olimpíada que infelizmente não aconteceu. Isso jamais viria a acontecer novamente.

Em 1941, no Sul-Americano organizado em Viña Del Mar, Piedade foi responsável por 50,5 pontos dos 174 conquistados pela equipe feminina, que conquistou o título por países2. Ela e Maria Lenk foram recebidas com festa no Rio de Janeiro pelo Presidente Getúlio Vargas, que desde a instauração do Estado Novo em 1937 se utilizava do esporte para compor o perfil nacionalista que tentava difundir7.

 

Quebrando barreiras

Logo depois, abandonou as competições para se casar e ter um filho. No entanto, em uma decisão inusitada, incomum hoje e muito mais naquela época, voltou à natação em 1943. Imaginem há 70 anos uma mulher romper valores que incompatibilizavam os papeis de mãe, esposa e dona-de-casa com a prática do esporte. Eleonora Schmitt, nadadora brasileira que participou das Olimpíadas de 1948, relembrou: “Ela levava muito a sério. O esporte era tudo pra ela. Acima de casamento, para Piedade, o esporte era o mais importante da vida dela.” 1

A própria Piedade declararia, anos depois: “Existiam muitos tabus naquela época em que a mulher não podia nadar, que a mulher era uma dona de casa, casada com filhos, não podia fazer esportes, era feio. E eu acho que eu dei um exemplo à mulher brasile ira, que nós podemos fazer isso e devemos, não só para darmos exemplo aos nossos filhos, à juventude e para o nosso corpo e nossa saúde também.” 7

Piedade Coutinho ao lado de nadadora não identificada. Crédito: Arquivo Folha

Piedade Coutinho ao lado de nadadora não identificada. Crédito: Arquivo Folha

Com tamanha devoção e dedicação, não parava de se desenvolver e melhorar. Continuou conquistando títulos brasileiros e sul-americanos e superando recordes. Em 1948, foi escolhida a melhor atleta do Brasil. Aos 28 anos, casada e considerada velha para o esporte, continuava quebrando paradigmas. Era vangloriada pela imprensa, como atesta o trecho do periódico Esporte Ilustrado de 22 de abril de 1948:

“Piedade Coutinho é como o vinho. Continua dando combate às suas marcas antigas, ao poderio   da juventude… Ontem, notável feito, hoje, senhora, mãe de um filho, mas sempre firme em busca de novas glorias.” 1

Naquele ano, nadou os Jogos Olímpicos de Londres, o primeiro do pós-guerra. Foi o principal nome do revezamento 4x100m livre que alcançou a final (sexta posição), ao lado de Eleonora Schmitt, Maria da Costa e Talita Rodrigues. A soma das idades de Eleonora (16) e Talita (13) resultava quase na de Piedade.

London 1948

Alcançou novamente a final dos 400m livre, terminando na sexta posição com um tempo ainda melhor do que havia feito na plenitude da juventude, em 1936: 5min29s4. Para ela, no entanto, a final não foi motivo de comemoração. Naquele ano, já havia feito um excepcional 5min20s3, tempo suficiente para a medalha de prata olímpica2. Mas as más condições de viagem para a Europa, estadia e alimentação, além da perda da forma por ter ficado vários dias sem treinar por causa da longa viagem, tiveram seu preço. Infelizmente, esse era o retrato do esporte brasileiro naqueles tempos, condições que também custaram medalhas a Maria Lenk e Manoel dos Santos.

 

O último suspiro

Beirando os 30, com duas Olimpíadas e três finais disputadas, diversos títulos e recordes, era hora de mudar de ares, certo? Não para Piedade Coutinho. Continuou no esporte que amava a tempo de disputar a primeira edição dos Jogos Pan-Americanos, em 1951, em Buenos Aires. Lá, conseguiu dois bronzes, nos 400m livre e 4x100m livre. Aos 31 anos, conseguia suas medalhas mais importantes – talvez não as mais representativas de seus grandes feitos, mas as mais significativas em termos de importância da competição. Além dela, os únicos medalhistas individuais do país foram Willy Otto Jordan, finalista olímpico em 1948, e da estrela emergente Tetsuo Okamoto, vencedor dos 400m e 1500m livre.

Nadadoras dos 100m livre no Campeonato Brasileiro de 1951. Piedade Coutinho, à esquerda, chegou na 2ª posição. As outras, da esquerda para direita: Leda Carvalho (1ª), Lira de Souza (3ª), Marlene Damiani Pinto (4ª), Isabel Ribeiro (5ª) e Denize Junqueira (6ª).

Nadadoras dos 100m livre no Campeonato Brasileiro de 1951. Piedade Coutinho, à esquerda, chegou na 2ª posição. As outras, da esquerda para direita: Leda Carvalho (1ª), Lira de Souza (3ª), Marlene Damiani Pinto (4ª), Isabel Ribeiro (5ª) e Denize Junqueira (6ª).

O último ato de sua carreira foi, como não poderia deixar de ser, no palco olímpico. Aos 32 anos, foi a Helsinque, em 1952. Nenhum atleta que nadou provas individuais era mais velho que ela (somente dois que nadaram revezamentos). Alcançou a semifinal da prova que a consagrou, os 400m livre. No dia seguinte, viu a consagração de Tetsuo Okamoto, bronze nos 1500m livre, o auge de uma história em que ela teve papel de protagonista.

Helsinki 1952

Após deixar as piscinas, foi diretora de natação do Botafogo. Também iniciou um trabalho de recuperação de deficientes físicos, interesse surgido durante a Olimpíada de 1936, quando, em Berlim, visitou um hospital que, através da natação, promovia a recuperação de crianças deficientes3. No final da década de 50, fez campanha para a construção do Lar de Recuperação da Paralisia Infantil, onde desenvolveu atividades aquáticas2. Este trabalho ela deu continuidade em Portugal, onde residiu por oito anos, e também em Brasília3.

Em 1983, retornou ao Clube de Regatas Guanabara, onde ela deu seus primeiros passos na natação competitiva, para praticar natação diariamente, ministrar aulas de aprendizagem aos amigos e se dedicar ao seu hobby favorito, a pintura. Para ela, “o esporte deve ser praticado com a função específica de educar a mente e formar personalidades. O bom esportista precisa saber ganhar e, principalmente, perder. Não é treinar feito um alucinado, visando a vitória a qualquer custo. Se fizer isso, estará esquecendo sua condição de ser humano, para pouco a pouco transformar-se num robô.” 3

Em 14 de outubro de 1997, Piedade Coutinho faleceu. Mas a longevidade de suas conquistas é impressionante. Seu quinto lugar de 1936 se manteve como a melhor colocação olímpica feminina do Brasil até 1964, quando Aida dos Santos foi quarta colocada no salto em altura. Em Jogos Pan-Americanos, uma mulher brasileira voltou a conquistar uma medalha individual na natação somente em 1971, com Lucy Burle nos 100m borboleta. E em Olimpíadas, o Brasil teve que esperar 56 anos para voltar a ter uma mulher finalista, com Joanna Maranhão nos 400m medley em 2004. E mesmo atrapalhada pelo cancelamento de dois Jogos Olímpicos, Piedade é a nadadora brasileira com mais participações, três, empatada com Joanna e Fabiola Molina.

Piedade Coutinho - Foto coletada no grupo "Álbum das gerações da natação brasileira", do Facebook

Piedade Coutinho – Foto coletada no grupo “Álbum das gerações da natação brasileira”, do Facebook

Poderiam ter sido cinco. Assim como medalhas olímpicas poderiam fazer parte de seu currículo. Mas Piedade Coutinho superou tabus que envolviam mulheres no esporte e se dedicar à natação após casar e ter filhos, e passou por cima até de uma Guerra Mundial para deixar seu nome na história do esporte do Brasil. Por isso, a partir de agora tem seu nome eternizado no Hall da Fama da Natação Brasileira.

Certificado Piedade Coutinho

Slideshow em homenagem a Piedade Coutinho:

 

 

Referências

1 Devide, Fabiano Pries (2003). História das Mulheres na Natação Feminina Brasileira no Século XX: Das Adequações às Resistências Sociaiis. Motus Corporis, v.10, n.1, pp 49-70.

2 Devide, Fabiano Pires (2006). Atletas-referência da Natação Feminina. In: DaCosta, Lamartine. Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Confef. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/90.pdf

3 Godoy, Lauret (1998). Adeus “Pitty”. Pesquisa não publicada.

4 Junqueira, Pedro (2008). O Campeonato Sul-Americano de 1935. Best Swimming. Disponível em http://www.bestswimming.com.br/conteudo.php?i=8113

5 Lenk, Maria (1986). Braçadas & Abraços. 2ª ed. São Paulo: Gráfica Bradesco.

6 Louzada, Silvana (2009). Photography and Modernization of the Press in Brazilian Capital: The First Fifity Years of the 20th Century. Brazilian Journalism Research, v.5, n.2, pp 152-168.

7 Mourão, Ludmila (2000). Representação Social da Mulher Brasileira nas Atividades Físico-Desportivas: Da Segregação À Democratização. Revista Movimento, v.2, n.13, pp 5-18.

8 Nicolini, Henrique (2011). Quem Foi Piedade! Blog do Henrique Nicolini. Disponível em http://www.gazetaesportiva.net/blogs/henriquenicolini/2011/04/18/quem-foi-piedade/

9 Titski, Ana Cláudia Kapp; Queiroz, Kauê Fabiano da Silva; Zanlorenzi, Tiago Dimitrow; et al (2008). A Mulher Nadadora na Perspectiva da Revista Educação Physica (1932-1945): Da Estratégia Publicitária À Atleta Potencial. Trabalho apresentado no 1º Encontro da Asociacion Latinoamericana de Estudios Socioculturales del Desporte.